sexta-feira, 3 de junho de 2016

Coisas do velho centro da grande cidade

Como diziam os antigos, que alívio ter onde desaguar. Dois prazeres complementares, pois decorrem um do outro: livrar-se do desprazer da sede e livrar-se, depois, do desprazer de uma bexiga pedindo alívio. Por sorte caminhava pelas proximidades do jardim da Luz quando do aperto. Há nele um banheiro público que poupa o necessitado do constrangimento de pedir autorização para uso de sanitário em bares e restaurantes, uso esse quase sempre condicionado a algum consumo.

Jardim da Luz ou Parque da Luz? Como queira. Parque da Luz é denominação mais recente, mas o lugar é o mesmo, e ao lado da estação Luz, lindamente concebida e edificada pelos ingleses no final do século XIX, e por onde embarcavam e desembarcavam passageiros da então São Paulo Railway. Hoje tem movimentação bem maior, mas pelos pobres e sofridos usuários da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos. Os suburbanos, que é o que são os passageiros restantes do que um dia foi a invejável malha ferroviária paulista. Até mesmo a linda estação quase se foi, e mais uma vez, por conta de incêndio recente.  Os sucessivos governos tucanos que há mais de duas décadas ocupam o Palácio dos Bandeirantes definitivamente não gostam de trens.

Para mim continua sendo o jardim da Luz, que um dia foi jardim botânico, e onde ainda se encontra um sanitário público, providencial ao menos para velhos que com o passar dos anos vão perdendo o controle sobre a micção. Desanimador saber que o próximo passo será o uso de fralda.

- Ridículo!

Quem lembra isso é velho amigo que se tornou atleta depois de sobreviver a um enfarte, mas garante que essa fase pode ser evitada por meio de exercícios dos músculos que sustentam a bexiga. Talvez, mas parece-me desproporcional exercitar sistematicamente um feixe de músculos apenas para ter o benefício do controle sobre um órgão. O banheiro da praça está à mão, e isso me parece suficiente. Também é assim no parque da Água Branca.

Eu conheci esse jardim quando ainda criança. Tenho uma vaga lembrança de por ele passar com minha mãe. Não me recordo se meu pai estava junto, e o que me sugere essa possibilidade é o lume de memória de uma foto tirada por lambe-lambe em algum jardim. Talvez não fosse esse, e nem mesmo a ocasião.

Apesar de ter nascido em São Paulo, capital, passei toda a minha infância em um bairro despovoado e pobre da periferia de Santo André, uma cidade suburbana. As lembranças de São Paulo na infância, portanto, apenas em virtude das poucas vezes que vinha para a metrópole. No restante, pouco do que lembrar.

Não vou ao jardim da Luz apenas pelo sanitário público, evidentemente. Quando a namorada está em São Paulo costumamos passear por ele. Ela o adora, principalmente depois de por lá termos passado em um dia de chuva e na ocasião saudados por um noia com expressão de inesquecível simpatia:

- O amor é lindo, disse.

O jardim não está abandonado, mas também não está devidamente cuidado. Já foi mais exuberante. Lá estão muitas das velhas árvores, mas a vegetação rasteira pede por zelo, assim como os espaços aquáticos. Tudo seco, e antes mesmo da crise hídrica pela qual passa a cidade e o estado de São Paulo. À mostra os leitos cimentados. Isso torna mais toscas do que já são as passarelas igualmente de concreto, com parapeitos e corrimãos imitando troncos e galhos de árvores. Padrão estético de outro tempo.

Ainda lá está o inesquecível e lindo coreto, todo trabalhado em madeira, e coberto com uma bela e ornamentada cúpula de cobre. Deve ter perdido completamente o seu valor de uso. Incrível, mas ainda sou do tempo de bandas e coretos, embora nunca tenha residido perto de nenhum.

Próxima ao coreto outra cobertura, sob a qual velhos passam a tarde reunidos, ao que parece jogando dama ou dominó. Não sei o que jogam, pois nunca me aproximei. Embora eu tenha falado em um noia, não é praça de noias. Eles preferem frequentar e morar nas proximidades da estação Julio Prestes, no passado da Estrada de Ferro Sorocabana, agora também da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos, e perto da estação Luz.

Os frequentadores habituais do jardim da Luz, assim como dos entornos da estação Luz, são as prostitutas. Caracterizam-se pela idade avançada para o ofício. Se eu fizer emprego desses ridículos termos inventados para disfarçar a dura realidade, diria que são prostitutas da terceira idade, ou mesmo prostitutas da melhor idade. São senhoras, literalmente senhoras, e a identificação de trabalho percebida pelos trajes absolutamente em desacordo com o estado das formas das anciãs. Curtos, demasiadamente juntos, chamativos, além da atitude de disponibilidade. Provocam transeuntes com olhares e expressões que entendem representar atrativo a eventuais clientes.

Confesso que a primeira vista a impressão é estranha, pois muito bizarra. Em certa medida chega a ser desoladora. As mais provocantes, digamos assim, ficam nas entradas e passagens internas da estação Luz. No jardim da Luz, propriamente, circulam senhoras mais discretas, sendo algumas rigorosamente discretas.

Uma vez conheci uma delas, e não faz muito tempo. Eu estava sentado em um dos bancos do jardim para descansar de um passeio pelas redondezas, e após mais uma das incansáveis visitas à Pinacoteca - onde passaria dias admirando as obras de Almeida Júnior -, quando surgiu uma senhora e perguntou-me com gentileza se poderia também sentar-se no mesmo banco. Também com educação sugeri, por meio de um gesto, que ficasse a vontade.

A senhora bem vestida, e dotada de elegância nos modos, tão logo que se acomodou abriu uma sacola de compras de onde tirou um tricô – agulhas e novelos de lã - que passou a manusear. Bonita, a seu modo, e discretissimamente maquiada, passou a tricotar com movimentos suaves, mas precisos. Imaginei tratar-se de alguma aposentada, com residência próxima, e que vez ou outra frequentava o jardim para escapar da rotina de casa. E era, mas não apenas isso.

Sem que eu esperasse, sem tirar a atenção do tricô, e sem olhar em minha direção, perguntou-me se eu costumava frequentar o jardim.

Respondi que não. Contei a história de lá ter estado pela primeira vez na infância, e depois apenas mais recentemente por conta da namorada que nele gosta de passear, principalmente para sessão de fotos de plantas, pássaros, construções, etc. Disse-lhe que fazemos isso todas as vezes que vamos à Pinacoteca, e eu algumas vezes quando de passagem por aquela parte da cidade para uso do sanitário público.

Demonstrando muito conhecimento, a senhora falou-me da Pinacoteca – que um dia foi o Liceu de Artes e Ofícios - do Museu da Língua Portuguesa, do Museu da Arte Sacra, das mudanças ocorridas no jardim ao longo dos anos, das alterações nos bairros circundantes, nos públicos frequentadores e até mesmo nos riscos da atualidade. Uma conversa interessante, instrutiva, e muito agradável. Uma prosa elegante, na qual nenhum dos dois invadiu uma vez sequer a privacidade do outro com perguntas invasivas.

Algum tempo depois e disse-me a senhora o que de fato fazia no jardim – “programa” – e com muita delicadeza colocou seus serviços a minha disposição, caso fosse meu desejo.

Agradeci a oferta, mas disse não ser outro meu interesse que não uma pausa na caminhada para descanso. Aproveitei para dizer-lhe que não deveria prender-se a minha companhia, uma vez que definitivamente não iria dela tornar-me cliente, e de nenhuma outra que estivesse no jardim. Tranquilizou-me quanto a isso, afirmando que a simpatia do encontro e da conversa era por si um prêmio. E era mesmo.

Pouco depois me levantei e sai, e apenas em virtude do adiantado da hora. Na calçada externa da estação muitas centenas de pessoas caminhavam apressadas em direção as bilheterias. Hora de regressar para o subúrbio, para suas casas, mas antes se sujeitando ao arriscado e sufocante embarque nos trens. Um serviço de segunda classe para gente que, na concepção do governo, é igualmente de segunda classe. Não vi velhos na marcha dos apressados que se amontoavam nas plataformas. Certamente não sobreviveriam.

- Inclusão, dizem os políticos.

As velhas prostitutas da estação ficam ainda mais evidentes em meio à multidão com suas roupas extravagantes. Em nada se parecem com a discreta colega do jardim, embora a atividade seja a mesma. Interessante que adotam diferentes aparências e abordagens, segundo as características de cada público.

- Bem, é assim em qualquer serviço, pensei.

Às mais degradadas os interessados igualmente degradados, e isso nota-se pelo estado dos homens que delas se aproximam. Velhos e pobres, como elas.

Como nunca tive interesse, mas também nenhum desprezo por elas, minhas interações são sempre cordiais. É assim desde a adolescência, quando a repressão da sexualidade era acentuada e as casas de prostituição tinham poder iniciático para a juventude, no mínimo para alimentar o imaginário masculino. Nunca, porém, fiz uso de serviço de prostituição. Sempre me pareceu estranha a ideia de pagar por sexo. Posso até ter dormido com mulher que fosse prostituta, mas jamais com a prostituta. Não fiz isso nem mesmo quando jovem adulto, marinheiro, e residente em Rotterdam e Hamburgo, duas cidades portuárias.

Fiz amizade com uma delas no bar de esquina de meu apartamento, e relativamente perto do jardim da Luz. Ela nunca sai de lá, e tem para isso um forte motivo: meu prédio é cercado por hotéis pequenos e baratos, e os hóspedes frequentam o bar para nele comprar cigarros, ou mesmo para beber algo ou fazer um lanche.

Como ela sempre me via comprar cigarros, e da mesma marca, brincava comigo adiantando meu pedido ao caixa do bar. Cumprimentava, sorria, e eu me comportava da mesma forma.

Uma noite resolvi sentar-me junto ao balcão e pedi um lanche. Ela tomou a liberdade de sentar-se ao lado e iniciar conversa. Sabia em qual prédio eu morava, e que morava só. Me observava, a exemplo do que devia fazer com muita gente.

Uma mulher de meia idade, mais jovem do que as da Luz, discreta e simpática. Depois de algum tempo perguntou-me se eu não queria companhia para aquela noite. Agradeci a oferta e disse que não. Brinquei, ainda, dizendo que antes só. Rimos. Perguntou se eu não tinha mulher. Disse que tinha, mas que morava fora do Estado de São Paulo, e que nos encontrávamos quando possível. Ela sorriu e disse que talvez fosse melhor assim, pois não havia como um se cansar do outro. Antes que eu deixasse o bar perguntou-me se eu não poderia pagar-lhe um lanche, pois estava com fome, e pelo jeito não haveria cliente para aquela noite. Paguei sim, e de muito boa vontade. Aliás, paguei algumas outras vezes.

Em uma das vindas da namorada para São Paulo, e óbvia hospedagem em meu apartamento, não é que a amiga do bar notou a presença? Quando novamente só e no bar para comprar cigarros, dela ouvi elogios à namorada e à bela figura do casal.

Nunca tive problemas com nenhuma delas. Recentemente um jornalista bochechudo, diretor de jornalismo de uma emissora de televisão e metido a debatedor, empregou o termo “mulher honesta” para contrapor ao de prostituta.

- Imbecil.

Tudo no centro velho é explícito e diversificado. Os noticiários gostam de mostrar o que ali tem de ruim, enquanto plantam ilusão da existência de bolsões de segurança. Os velhos que moram e frequentam esta zona sabem disso, e de como lidar com isso. Ora, muitos deles são traficantes, falsificadores e principalmente golpistas, cujo disfarce de velho é perfeito para aparentar bondade e fragilidade. Não importa, uma vez que velho nada mais é do que uma pessoa qualquer.

Sendo meu quarteirão o do comércio de motos e bicicletas, vejo aos montes velhos que se mantêm fiéis aos tempos em que motociclistas eram rebeldes, e lá estão em bandos com roupas de couro sob as motos potentes e caras. No apelo ao politicamente correto, também estão velhos a procura de bicicletas para que possam com elas desfilar pelas novas ciclovias ou ciclofaixas. Em alguns lugares estão velhos que preservam costumes hippies, ou mesmo de roqueiros radicais. O centro velho é verdadeiramente uma fauna.

Aquela parte da cidade tem forte ingrediente sexual, inclusive dentre os velhos. Demonstração disso está nas muitas farmácias e drogarias, que anunciam uma indisfarçável competição na venda do comprimido azul para ereção. Nunca vi isso em outro lugar, onde a venda evidentemente existe, mas discreta como tudo que diga respeito à sexualidade.

Ali é exemplo de tudo que moralistas condenam, talvez de onde a ocupação do mesmo espaço público por pastores e suas pregações histéricas ao lado de travestis fazendo ponto. Não gosto deles. Parecem-me degenerados no espírito. Homens insatisfeitos com si mesmos, desafiadores em relação a tudo e a todos, e mal acomodados dentro da forma de mulher.

Bem, há quem goste. Esse é o lado bom da diversidade, inclusive para os velhos. Vejo um ou outro entrando e saindo de boates, e mesmo dos antigos cinemas que se tornaram locais de shows eróticos. A velhice por si não melhora e nem piora nada. Exacerba o que as pessoas sempre foram ou tiveram vontade de ser, e isso é verdadeiro também para suas taras e fantasias.

O centro velho é repleto de surpresas. Qual não foi o susto, chegando uma tarde ao apartamento, e encontrar um gato deitado na poltrona. Um gato cinza, grande e gordo. Interessante que não esboçou nenhuma reação com a minha presença. Ficou como se ali estivesse a vida toda. Fiquei eu sem ação.

Certamente havia entrado pela área de serviço e devia circular entre apartamentos pelo parapeito externo do edifício. De quem seria aquele gato, afinal?

Abri a porta que dá acesso ao estreito e sombrio corredor na esperança de encontrar algum vizinho que soubesse dizer do gato. Havia um menino limpando sua bicicleta.

E não é que ele sabia? Bastou descrever para que ele identificasse.

- Anastácia.

Ora, nem mesmo um gato era, mas uma gata. Animal de ninguém, mas ao mesmo tempo de toda a gente. Disse-me que era alimentada coletivamente, e que circulava livremente entre os apartamentos. Disse-me que era castrada.

Como eu estava por ir ao supermercado, aproveitei para comprar um pequeno pacote de ração, dois pequenos vasilhames para servir alimento e água, e descobri um saco contendo um tipo de pedriscos, cujo conteúdo servia para que a gata fizesse uso como sanitário. Desconhecia isso, mas conhecia a prática de areia dentro de uma caixa. Afinal, sou de um tempo que gato era apenas gato, e cachorro apenas cachorro.

Quando voltei das compras a gata estava no mesmo lugar, e não moveu um músculo sequer com minha presença. Guardei o que havia comprado, cuidei de colocar ração em um dos vasilhames e água no outro, e os deixei em um dos cantos da área de serviço. Fiz o mesmo com o material absorvente, acondicionando dentro de uma caixa de uvas que consegui junto ao caixa do supermercado, e depois revestida no interior por um plástico preto. Como a gata não se movesse, tomei a iniciativa de tirá-la da poltrona, carrega-la sob o braço e coloca-la ao lado da ração. Cheirou, abaixou-se e começou a comer com a delicadeza própria dos gatos. Liguei a televisão para assistir o primeiro jornal da noite e sentei-me na poltrona agora vaga. Notei, quando fui preparar um café, que ela havia desaparecido. Bem, ela agora tinha comida, água e mesmo onde fazer suas necessidades caso resolvesse voltar. Tive uma sensação agradável: a de ter um bicho de estimação, mas sem sentir-me responsável pela manutenção dele.

Nunca fui fanático por animais de estimação.  Causa-me espanto ver no que isso se transformou: pets, clínicas veterinárias e toda sorte de produtos inimagináveis em passado não muito distante.

Aquela área é muito diversificada. Talvez nenhum outro lugar de São Paulo seja tão plural. Encontra-se de tudo, e normalmente convivendo harmônica e pacificamente.

Há uma senhora bastante idosa que muitas vezes cruza comigo na calçada do prédio do apartamento. Ela deve morar perto. Magrinha, bem magrinha, tem um andar lento pelos passos curtos, embora determinados. Costuma vestir calça justa de moletom e sobre ela um vestido estampado que vai até a altura dos joelhos. Cabelos curtos, mal cortados e mal cuidados. Quase sempre me cumprimenta com um sorriso quando passamos um pelo outro.

Um dia desses e ela parou, ficou me olhando como se quisesse dizer-me algo quando dela me aproximasse. E foi o que aconteceu.

- O senhor assiste Tv?

- Às vezes, respondi.

- Como se chama o ator do filme Uma Bela Dona?

Eu sabia de que filme ela falava. Não era esse o título e não me lembrava do nome do ator.

- Vou pesquisar e direi à senhora na próxima vez que nos encontrarmos.

Ela concordou, agradeceu, e seguiu o caminho. Pesquisei na internet e lá estavam os dados: Uma linda mulher, com Richard Gere. Era isso. No encontro seguinte fiquei eu parado esperando que ela se aproximasse para passar-lhe a informação.

- Uma linda mulher, com Richard Gere.

Ela agradeceu e continuou na caminhada. Não foi a última vez que me fez perguntas. Bem, parecia claro que ela apreciava palavras cruzadas, e também claro que não pesquisava em fontes impressas ou digitais.

Lembrei-me agora do escritor, poeta e filósofo do quarto andar. Bem, é assim que ele se apresenta no folheto afixado no quadro de avisos da portaria, bem como na contracapa do pequeno livro de que é autor, e deixado para consulta de quem queira conhecê-lo na portaria do prédio, mas amarrado à mesa por um barbante grosso para que não seja desviado. Não conheço a pessoa, mas tive a curiosidade de folhear a pequena obra. Nem pensar na compra autografada de um volume, tal como anunciado a quem por isso se interessar. O homem escreve mal, e em todos os sentidos. É daqueles que constroem frases bonitinhas pelos arranjos de palavras, mas que não dizem nada para o intelecto e tampouco para as emoções. Escreve de modo superficial sobre coisas superficiais, e faz depois emprego de algum dicionário de sinônimos para dar a cada expressão a aparência de algo solene. Quanto ao lado filósofo, nada além de bobagens sem nexo, mas com fumaças de profundidade. Um modelo igual a esses tantos que se encontra às dúzias pelas redes sociais. Não deixa, porém, de ser o homem culto do edifício e creio que isso envaidece os demais moradores, na maioria pessoas simples e ao que parece distante do mundo das letras.

Encontro com filosofia, naquela região, apenas uma vez e com um noia que me pediu uma moeda para almoço no Bom Prato mais próximo, um programa da Secretaria do Desenvolvimento Social do Governo do Estado. Disse que noias somos nós, os chamados normais, pois não conhecia paranoia maior do que vender o tempo de vida no trabalho e apenas para sustentar a própria vida. Bem, algo sobre o que pensar com seriedade, uma vez ser essa a condição da grande maioria de nossa gente.

Vem-me também à lembrança uma cena sui generis. Ferroviários promoviam assembleia na frente da estação Júlio Prestes, quando uma jovem noia pediu para fazer uso do microfone. Os ferroviários deram a ela a palavra, e não é que imitando a eles propôs um “encaminhamento”? Queria que fosse votada a proposta que a estação Júlio Prestes passasse a se chamar estação Cracolândia. A proposta não foi votada, mas a moça muito aplaudida pelos presentes – ferroviários e usuários de trens.

Como é gratificante visitar um sebo que fica próximo à praça da República, onde se encontra um grande acervo de obras raras, e ser atendido por livreiro que conhece seu negócio, seu público e boa parte dos títulos e autores pelos quais seus exigentes clientes – colecionadores e pesquisadores - vivem à procura. Nada ali lembra o comércio genérico de livros seminovos e atendentes que desconhecem livros e autores, embora façam emprego do pretencioso slogan “posso ajudar”. Nunca ajudam, pois nada sabem.

Também gratificante passar momentos agradáveis na cadeira do barbeiro que trabalha no mesmo lugar há mais de trinta anos e mantém os mesmos cortes e métodos. Verdadeiramente um barbeiro. Um retorno ao passado, e com a cortesia de atendimento do passado. Trata-me por cavalheiro. Como escapar da Berinjela a Parmegiana do tradicional La Farina – sem que isso desmereça o churrasco grego da esquina ou o tempurá da barraquinha de alimentos - e do sempre agradável encontro aos domingos na praça da República com meu amigo, o artista plástico peruano Hugo Espiritu Escobar, autor de maravilhosas pinturas sacras no mais autêntico estilo barroco cusquenho (acima a esquerda)? Não importa se o bolso não alcança o terraço do Edifício Itália ou as mesas do Bar Brahma, pois o velho centro tem atrativos para todos os bolsos, e nem por isso menos encantadores.

Muita coisa ali surpreende. Não faz muito tempo e precisei acamar-me por conta de um fortíssimo resfriado. Na primeira noite sob as cobertas e senti a presença de algo que se movimentava com extrema leveza sobre a cama. Com o pouco de luz que ainda entrava no quarto vindo da iluminação da rua, vi que era a gata – Anastácia – que me olhava com atenção enquanto pisoteava o local em que pretendia deitar-se, como que ajeitando um ninho. Terminado o pisoteio ela deitou-se, continuou me olhando por algum tempo e em seguida dormiu encostada em minha coxa esquerda. Bem, também eu resolvi dormir.

Para meu espanto Anastácia ficou me fazendo companhia por três dias seguidos, tempo que fiquei recolhido até o desaparecimento dos sintomas. Ia comigo dormir quando eu me recolhia sob as cobertas. Acordava quando em acordava, levantava quando eu levantava, deitava na poltrona e de lá ficava me olhando enquanto eu estava à frente do computador e se deitava em meu colo quando eu me sentava na poltrona para assistir programas de televisão. Quando me senti melhor e pude sair para cuidar de atividades externas Anastácia foi-se, e não mais voltou para dormir ao meu lado. Não gosto de pensar em animais de forma antropomórfica, mas desta vez fui tentado a crer que Anastácia, a gata, tenha cuidado de mim durante esse tempo. Nunca imaginei isso, ainda mais lembrando que somos seres independentes e desconhecidos. Afinal, somos ambos paulistanos: discretos e silenciosos.

Rogério Centofanti