quarta-feira, 10 de agosto de 2016

O evocar da memória do cotidiano



Creio que pessoas que ainda mantêm pinguim sobre geladeira, mas que o herdaram, não sabem dizer de sua origem. Eles, entretanto, os pinguins, já foram numerosos e, certamente, descartados porque ninguém mais tinha com eles algum tipo de vínculo. Não é de duvidar que foram adquiridos com a primeira geladeira e, nessa medida, tiveram, como ela, um valor simbólico, talvez emblemático. Afinal, houve tempo em que geladeira era coisa de gente “bem de vida”. Também não é de duvidar que a geração de pinguins tenha desaparecido quando os velhos refrigeradores foram substituídos por novos, então tornados populares, e eles, pinguins, tornados kitsch, de mau gosto, assim como os anões de jardim, as toalhinhas de crochê sobre rádios e televisores, e também de crochê os pequenos galos que vestiam o bico dos bules de chá e café. Em sua época, porém, esses adornos tinham presença quase obrigatória, ao menos nas casas de certas camadas sociais, e estiveram presentes em momentos que ainda devem estar registados na memória de uns tantos remanescentes. Um dia fizeram parte do cotidiano de muita gente.
Parece-me ser dessa forma que as coisas vão surgindo e desaparecendo, bem como seu significado e respectivo valor. Ainda bem que é assim, ao menos pela perspectiva de pessoas que têm fascínio pela descoberta da representação das coisas, como eu, pois ganham brilho nos olhos com esse resgate. Para a cultura de uma dada sociedade, entretanto, pena que seja dessa forma. Para quem sabe ouvir essas coisas quase pedem para falar. Diria mesmo que quase gritam, embora a maioria surda não lhes dê ouvidos. Falta quem conte as histórias que junto a elas tiveram, assim como quem queira registrá-las. Certamente são inúmeras, e algumas quase literárias.

Mesmo com o passar do tempo, entretanto, nem tudo vai ao chão ou ao cemitério dos rejeitos. Muitas coisas permanecem. Por teimosia ou apenas por esquecimento resistem ao tempo, coisas ficam expostas ao olhar de todos, mas pouca gente lhes dá atenção. Passam a compor o cotidiano, a fazer parte da paisagem, e ali ficam por ficar, pois os motivos que um dia deram origem à sua construção ou aquisição foram sepultados no passado, muitas vezes longínquo.
Essas coisas, entretanto, esperam pela descoberta dos que gostam de especular, de pesquisar, de reunir informações e a partir delas reconstituir o passado, ainda que por verossimilhança. Assim se dá o retorno à origem das coisas, sejam elas ruas, praças, casas, igrejas, móveis e o que mais persistir em fazer parte do cotidiano. São muitas vezes coisas de grandes proporções, nada discretas, mas no anonimato, e à espera de quem possa novamente lhes emprestar algum sentido.
Com esse entendimento, eu diria que muitas são as coisas no dia a dia que estão por ser reveladas. Não o são, todavia, porque quem ignora não pergunta, e quem sabe não registra. Na ausência quase generalizada de informações, o resgate vai se tornando a cada dia mais difícil, até que se torna praticamente impossível, exceto por sua reconstituição por meio de deduções, de especulações, que resultam em alguma versão crível, mas apenas isso. Antes de chegar a essa fase, porém, nada mais oportuno do que recorrer ao arquivo interior de pessoas que, desde há muito tempo, convivem com coisas mantidas na paisagem, e se mostram dispostas a abrir e a compartilhar o riquíssimo acervo de suas memórias.

Necessário lembrar, entretanto, que recorrer ao arquivo interior das pessoas não equivale a recorrer a um arquivo físico, e nem mesmo a um arquivo digital de algum computador. Não é a busca de informações que podem estar “arquivadas” em algum cartório ou repartição pública, mas daquelas que fizeram parte da vida, no sentido humano, e inevitavelmente repletas de dramaticidades, como todas as experiências verdadeiramente significativas na trajetória de cada um de nós, de nossa biografia.
Ah, e como é boa essa atividade arqueológica. Ela pode não ter o glamour das aventuras fantasiosas de Indiana Jones, mas as incursões pelo sótão de um velho casarão, por exemplo, são reais e consistem em oportunidade de fazer descobertas surpreendentes. Atividade gratificante, é lógico, para quem gosta de investigar, de descobrir. Coisa de gente movida pela curiosidade e sempre com fome de respostas para as suas insaciáveis dúvidas.
Muito mais pela busca de ocupação de tempo, do que por qualquer outra razão, digamos, mais nobre, acabei me abrindo para um tema que não fazia parte do elenco de meus interesses: capelas. Sim, capelas, e ainda assim por mero acaso. Aliás, eu diria que, em boa parte das vezes, essas coisas acontecem por acidente. Surgem! Quando menos se espera e eis que aparecem em nosso caminho: receitas de bolos, porteiras, pontes, instrumentos ou ferramentas e outras manifestações do fazer que perderam atualidade, mas de certo modo continuam presentes.
Morei por algum tempo em uma minúscula cidade do interior de São Paulo. Plantada no alto da Serra da Mantiqueira não tinha mais do que cinco mil almas, sendo a maior parte na área rural. Para meus hábitos metropolitanos, eu diria que uma cidade sem atrativos, isto é, sem nada com que ou com quem eu pudesse exercitar minha habitualidade. Não havia nada de meu interesse. Nenhum destaque nas artes, no artesanato, na gastronomia e nem mesmo nas cenas naturais. A localidade é - pois ainda lá está -, aquilo que Monteiro Lobato disse tratar-se de uma família que se imagina como cidade. Todo mundo conhece todo mundo e, de certa forma se mantém entre eles, uns com os outros, algum grau de parentesco. Ali se nasce por nascer, se cresce por crescer, e se morre de mesmice.

Quando recém-chegado, e como de costume inquieto e curioso, interessei-me por informações sobre alguns aspectos da cidade, mas rapidamente encontrei dois obstáculos que dificilmente eu poderia superar. O primeiro é que as pessoas não gostavam de conversar com estranhos. Incrível, mas desfaziam rodinhas de prosa quando eu me aproximava. Desconversavam ou demonstravam certa hostilidade quando de minha presença. O segundo, depois que consegui interagir com uma ou duas pessoas, é que não gostavam de falar sobre as coisas e as pessoas do lugar. Parecia mesmo o vaticínio de Lobato: uma família que imaginava ser uma cidade. Comportavam-se como se os assuntos locais, como se a história da cidade não fosse da minha conta. Notei, depois, que faziam isso com todos os “de fora”, ainda que residentes. “Da cidade” apenas quem nela nascia, e mesmo assim na condição de descendente de algumas gerações de ali nascidos. Não era apenas por essa razão, porém, que desprezavam minha curiosidade: não tinham respostas para minhas perguntas. Motivo? Nada perguntam. Não era comigo, apenas, que não falavam sobre a cidade. Não falam sobre nada que possa ter algum ingrediente polêmico ou que dê a entender que exista a possibilidade desse ingrediente. Não é sem razão, portanto, que a prosa fica sempre em torno do tempo, do clima e de outras amenidades que não geram a menor possibilidade de interpretação. Nada que não dê ao interlocutor, como resposta, apenas um “é verdade”, “é mesmo”, “de fato”.  Minhas perguntas deveriam ter algum conteúdo de tensão. Talvez muitos conteúdos. Eu não sabia o motivo, mas ao que parece eles sabiam, de onde o silêncio e o isolamento. Hoje eu sei: uma pergunta não deixa de conter uma ponta de crítica.

Inconformado com não ter o que fazer, e percebendo que nada faria na cidade enquanto nela permanecesse, e resolvi desbravar as montanhas, aventurando-me pelas incontáveis estradinhas vicinais que iam e vinham de todos os lados. Incrível, mas não havia nem mesmo um pequeno curso d’água para chamar a atenção, para merecer uma foto. O que se via era terra coberta por plantações de eucalipto, algumas vezes de milho, pequenos pastos abrigando um gado minguado, as mesmas casinhas esparsas, vez ou outra um ajuntado delas denunciando o que talvez se pudesse chamar de povoado, e apenas isso. Nos terrenos altos, a visão de serranias sem fim, paisagem igualmente cansativa, pois invariavelmente sempre a mesma em todos os ângulos.
Na segunda ou terceira incursão notei, finalmente, que havia algo que poderia ser de meu interesse: uma quantidade significativa de capelas de diferentes formas e tamanhos. Agora, orientando o olhar a procura delas, e eis que estavam mesmo por todos os lados. Não havia estradinha sem capela. Algumas vezes mais do que uma na mesma estradinha. Também não havia agrupamento de casas que não gravitassem ao redor de uma capela. Especulando na cidade, depois de enfrentar as dificuldades de costume, disseram-me que havia mais de uma centena delas nos limites do município. Como assim uma centena delas? Bem, se considerasse como amostragem o bom número que encontrei sem muito me distanciar da cidade, talvez isso fosse possível, sim.
Finalmente encontrara algo com que me ocupar enquanto por lá estivesse: desbravaria o sertão a procura de capelas. Iria tornar-me um caçador de capelas. Foi assim que descobri que o município estava dividido em bairros, o que me ajudou a organizar minhas entradas e bandeiras. Evidentemente que não demorou nem uma semana para que todos soubessem e comentassem que “o homem” estava interessado nas capelas da cidade. Deve ter soado estranho o interesse do forasteiro. Mas como pessoas de fora têm manias incompreensíveis, como pintar com cal as pedras das chácaras que compram na região, ninguém mais tenta entender “essa gente”.
— Capelas? Ele agora está fazendo perguntas sobre capelas?
Resolvi começar pelos bairros próximos antes de me aventurar pelos distantes. Antes de tudo porque coisa mais fácil era perder-me nas vicinais, lembrando que são todas muito parecidas, e que não há placas indicando direções. Só na cidade, em suas aproximadamente dez ruas, havia duas igrejas grandes. Bem, três, se eu contasse uma que ficava no alto da pedra, enorme e famosa, onde se dizia ter aparecido, no passado, uma santa — a virgem da pedra. Talvez o grande número de capelas se devesse à religiosidade daquela gente. Mesmo assim, era desafiador imaginar algo em torno de cem delas. Cem capelas para aproximadamente cinco mil vidas?

Eu não tinha ideia do que iria encontrar e a rigor nem mesmo o que iria fazer. Já trabalhara em vários projetos memoriais, mas nunca em algum que tivesse capelas, e ainda tantas. Normalmente com ofícios, com biografias, mas nunca com desconhecidos, inclusive uns dos outros, esparsos, e tendo capelas como temática. Minimamente fotografá-las, obter algumas informações sobre suas origens, e talvez indicar a localização de cada uma delas em um mapa do município que, com a habitual dificuldade, consegui obter junto à prefeitura. Pretendia, obviamente, entender qual a relação afetiva das pessoas com aquelas igrejinhas, mas nunca havia me relacionado com pessoas do campo. Para bem da verdade, o que eu queria mesmo, naquele momento, era ocupar meu tempo com alguma atividade gratificante, que devolvesse minha alegria e me libertasse do insuportável tédio do lugar.
Comecei pelo começo, equipado com carro, câmera e objetivas, bússola e gravador, mapa, papel, caneta e prancheta. Parti assim ao encontro da primeira capela, a mais próxima, pela qual já havia passado algumas vezes em minhas andanças, e que ficava em uma ladeira bastante íngreme.

Pequena e abandonada estava plantada à beira de um barranco alto. Estacionei o carro ao pé do barranco e fiquei pensando em um jeito de subir até a capelinha. Desnecessário dizer que forma física para escalada de barrancos e para percorrer terrenos acidentados não faz parte do conjunto de minhas poucas habilidades. Isso sem contar o medo de uma cobra, de um boi solto no pasto, ou mesmo de estar invadindo as terras de alguém. Olhando melhor, percebi que ela não fora construída à beira do barranco, mas seguramente à beira de um caminho, cujo leito, com o passar dos anos, e pela ação de motoniveladoras, foi sendo progressivamente rebaixado para manter a transitabilidade. Foi assim que essa, e não apenas essa — pois encontrei várias na mesma condição —, permaneceu ao alto, com a estradinha bem abaixo do que, com o tempo, se tornou um barranco. Além disso, notei que estava vendo a capela pelo fundo, pois a frente deveria estar voltada para o interior da propriedade, e que estava cercada por arame farpado.
Por onde subir? Por onde entrar? Não havia por perto nenhuma casa onde alguém pudesse dar informação, talvez me acompanhar, ou ao menos autorizar minha entrada. Como, afinal, se comportar frente a uma capela fechada? Entrar, fotografar, medir ou não fazer nada disso? 

Como o desnível entre o terreno e a estrada parecia diminuir na medida em que se descia a estradinha, segui em frente de carro e estacionei novamente, agora onde podia, com certa facilidade, acessar o terreno que me parecia ser o da capela. Mais uma vez sem gente por perto, peguei a tralha com material de trabalho e com dificuldade passei pelo meio de arames farpados. Beirando a estrada, por dentro do terreno, e fui em direção à capela. De fato, a porta fazia frente para o interior da propriedade, e apenas um pequeno cruzeiro de madeira indicava tratar-se de uma capela, e não de um pequeno paiol, engano que cometi pelo menos duas vezes.
Feinha, a coitada, não passava de uma acanhada construção retangular, coberta por um telhado de duas águas, com telhas coloniais — que na região chamam de “comuns” — sobre caibros roliços de galhos de eucalipto, e que era possível ver de fora. Uma reforma, portanto, pois não deveriam ser os originais. As paredes de tijolos de barro, típicos dos ainda hoje empregados em paredes e cobertos com reboco. Na capela, porém, como os tijolos estavam à vista, estava claro que as paredes nunca foram acabadas. A julgar pelo tipo e tamanho dos tijolos, a construção não devia ser muito antiga. O batente e as folhas da porta, embora rústicos, também não pareciam antigos. Nem janela nem entrada de ar e luz além da única porta, que parecia apenas encostada.
E estava! Bastou empurrá-la para que se abrisse, gemendo, como se reclamasse, pelo atrito com o piso de tijolos crus espelhados. Pela quantidade de poeira e de teias de aranha, não se podia duvidar do abandono, da ausência de vida em seu interior. Um pequeno oratório de madeira praticamente desmontando, duas ou três imagens, uma cruz encostada em um dos cantos do fundo e eis tudo que havia em seu interior. Foi difícil fotografar. Não havia ângulo que se pudesse valorizar, mesmo porque sob a luz do sol do meio dia. Nem de perto, nem de longe, nem de fora, nem de dentro. Nenhum detalhe que chamasse atenção. Mesmo assim passou por uma sessão de fotos para posterior análise e escolha. Também medi e registrei em papel a planta baixa, onde apontei o norte magnético com auxílio de uma bússola. Puxei novamente a porta, guardei na bolsa minha tralha e voltei para o carro. Por sorte o terreno estava “limpo”, isto é, coberto apenas pelo capim baixo que servia de pasto a bois e cavalos, embora não tivesse visto nem um nem outro. Ainda bem, pois me sinto seguro com eles soltos por perto.

Voltei por onde entrei e, mais uma vez, venci os fios de arame farpado. Retornei ao carro e segui em frente pela estradinha. Logo que teve início a subida de um novo morro havia, em sua encosta direita, uma casa. Nela observei a presença de um homem na varanda. Isso me deu a ideia de parar e fazer perguntas. Antes, porém, que esboçasse a primeira, e antes mesmo do tradicional cumprimento de boa tarde, disse-me o homem:
— O senhor vai encontrar capela melhor para retrato, moço.
Incrível, mas meus movimentos estavam sendo observados. Agradeci a informação, e perguntei o que ele sabia sobre aquela capela. Antes de responder, porém, ele queria saber quem eu era e qual meu interesse com fotos de capela. Identifiquei-me e contei-lhe dos motivos que me levaram ao interesse por capelas, sendo aquela a primeira a ser fotografada. Ele riu, sem disfarçar o descrédito que minha história lhe inspirou, embora não tivesse contestado. Só mais tarde fui entender que é incompreensível para aquela gente aceitar que alguém possa se dedicar a alguma coisa sem interesse. Nessa medida, se alguém diz que não tem nenhum interesse definido sobre algo, só pode estar mentindo, fazendo o ouvinte de bobo e, como não faltam histórias de gente da cidade que gosta de passar a perna em gente da roça, há sempre que se lidar com essa desconfiança.

Bem, o homem ainda jovem — ele tinha algo em torno de trinta anos —, baixo e atarracado, nada sabia sobre a origem da capela. Sabia apenas que ela lá estava quando ele nasceu, e lembrava-se dela exatamente do jeito que ainda está hoje, pois passara por ali todos os dias na ida e vinda da escola. Lembrava-se, também, de que o madeirame de sustentação do telhado foi trocado havia não mais de dez anos. Nunca viu reza, missa, festa ou qualquer outra atividade na capela ou perto dela. Olhou-me com espanto e reprovação quando lhe perguntei por qual motivo manter uma capela se nada era nela celebrado. 
— É uma igreja, homem, respondeu-me de pronto.
Bastou-me constatar tal reação, para que eu entendesse o motivo da preservação das capelas, ainda que no meio do nada, e ainda em meio à gente que não demonstra qualquer vocação preservacionista. E não preserva mesmo! Prova disso estava na cidade, onde as casas antigas passavam quase todas por modernização, isto é, por desconfiguração: janelas de madeira trabalhadas eram substituídas por similares de alumínio. Adoravam a ideia do novo, do moderno, e pareciam envergonhados com o que tinham de antigo, e isso se aplicava a tudo: casas, móveis, eletrodomésticos, etc. Ah, mas capelas eram igrejas, podiam ser reformadas, mas nunca postas no chão. Foi bom saber!
Quanto àquela primeira capela, disse que quem podia saber de sua origem era seu pai, mas havia falecido. Quando vivo, porém, dizia que foi construída no lugar onde um sitiante fora morto a facadas por um desafeto. Ele próprio, porém, o filho, tinha dúvidas quanto à veracidade dessa trágica versão. Disse-me que era comum o povo ouvir um caso e ir passando adiante como se fosse verdade. Indicou-me caminhos que levariam a capelas boas para “retratos”. Boas, na opinião dele, porque foram reformadas e estavam como novas. Bem, justamente as que não me interessavam, mas eu nada disse.
Embora fosse importante fazer o levantamento memorial de cada uma das capelas existentes, na primeira empreitada notei que não teria tempo para fazer esse trabalho enquanto estivesse na região, pois não seria nada fácil. Do ponto de vista tipicamente estrutural, entretanto, e no que dizia respeito a períodos e motivos de construções, notei que não havia muito mais o que saber depois da terceira ou quarta incursão.
Ainda bem, pois na maioria das que estive, e que não passou de meia dúzia, a canseira de subir e descer barrancos, passar pelo meio de fios de arame farpado, andar pelo meio de mato, caminhar por pastos com bois soltos me olhando, tropeçar, ser ferroado por abelhas e ficar coberto de pó e teias de aranhas foi uma constante. Foram raras as vezes que cheguei acompanhado nas capelas, e que estavam limpas e organizadas.
Quase sempre atendido na porteira de sítios ou chácaras, mas vez ou outra na varanda ou mesmo na sala, com direito a café e até pedaço de bolo, ouvi histórias interessantes, mas sempre com a diferença de gente nova e antiga. Incrível, mas em um sítio, que ficava do outro lado da estrada onde se encontrava uma velha capela, e que por lá estava desde a segunda década o século passado, e o homem que me atendeu, de aproximadamente quarenta anos de idade, nada ou quase nada sabia sobre ela. Bem, não sei se alguém da mesma idade, e que mora na calçada do outro lado da rua e em frente a uma velha igreja, em São Paulo, sabe algo sobre ela. Estranho, ali, que construções apenas a capela e a casa do sitiante. O restante era um imenso pasto com algumas árvores esparsas.

De qualquer forma, e de modo geral, os períodos e motivos das construções das capelas eram mais ou menos os mesmos, o que não significava, é claro, que a exemplo das pessoas, cada uma delas não tivesse sua própria história. Diria mais: apenas pelos estilos, tamanhos e materiais empregados nas construções, e haveria muito a explorar na história de cada uma delas, ou ao menos em boa parte delas. Lamentavelmente não encontrei um único construtor de capelas. Queria saber de onde surgia a inspiração arquitetônica de algumas, mas, quando muito, encontrei quem tivesse participado da reforma de uma ou outra, embora ninguém que tivesse a menor ideia de restauro, o que infelizmente redundou na desfiguração de muitas. Encontrei porcelanato onde havia assoalho de ipê, tela de plástico sobre respiro de parede, altar de concreto onde havia prancha de peroba maciça, porta de vidro onde havia madeira, telha francesa onde havia colonial, acrílico no lugar de vidro e algumas outras “reformas”, que é como chamavam.
Conheci quem com orgulho me falou da construção de uma capela novinha em folha no lugar da “velha”, de pau a pique, e dotada de madeirame talhado com enxó. O motivo do orgulho é que a “nova”, sendo maior, foi construída ao redor “velha”, derrubada tão logo a novata ficou pronta. Ah, sim: das madeiras talhadas com enxó fizeram carvão. Uma história difícil de ouvir sem cair em lágrimas.  Também ouvi, é verdade, quem dessas práticas falasse com pesar. Foi proseando com os “antigos” – como por lá se referem aos mais velhos —, que eu soube o motivo da construção de tantas capelas.

O município vem sofrendo significativa redução de habitantes desde meados da década de quarenta. A região floresceu no ciclo do café, quando atraiu trabalhadores de outras partes do Estado e mesmo do exterior, a exemplo dos imigrantes da Itália. Porém, por ser muito montanhosa, não tardou para que o café fugisse para as terras férteis e planas do oeste. Com o fim do café, a cidade nunca mais encontrou um novo ciclo econômico que pudesse lhe dar alguma pujança. Houve o plantio da batata, mas perdeu para planícies onde se podia fazer uso de maquinário agrícola. Houve também a suinocultura, mas não sobreviveu ao tempo das fiscalizações, pois a região está toda ela em área de preservação ambiental. Apesar de fazer parte do circuito das águas, não tem águas, e a vocação turística está perto de zero pela mais completa incompetência dos “da terra” em lidar com os “de fora”.
Hoje a cidade está quase toda orientada ao plantio de eucalipto, que não gera emprego nem renda, exceto para as carvoarias clandestinas que estão sempre envolvendo o nome da cidade em notícias sobre a prática de trabalho análogo ao de escravo. A continuar assim, e será o que o já citado Monteiro Lobato chamaria de cidade morta. As capelas? São quase todas da época áurea do município, quando, no dizer dos antigos, a região tinha muita gente, trabalho e alguma renda. Isso, porém, apenas na análise dos antigos, pois os novos nada sabem sobre isso nem sobre as capelas e nem sobre a idade de ouro da região. Os novos são os que vão e vêm pelas estradinhas vicinais em suas motocicletas, em cujas garupas carregam motosserras. É a vida voltada para o plantio e à derrubada de eucalipto. Bobagem perguntar-lhes sobre as capelas.
— Melhor o senhor perguntar para o pai. Ele é antigo.

Ouvi histórias de pessoas que atravessaram todos os ciclos econômicos, que viram os filhos partirem para a capital e outras cidades em busca de trabalho - quando do início da industrialização paulista -, que viram as terras de seus pais se tornarem economicamente inviáveis como consequência da partilha entre irmãos, e da divisão de terras pequenas em pedaços ainda menores para serem vendidas para os de fora formarem suas chacrinhas de finais de semana. Histórias de pessoas que ali continuam por teimosia ou por falta de escolha, pois não têm terra nem para plantar um pouco de cebolas, arroz e feijão para a própria subsistência. Quando muito a criação de algumas galinhas, de um porquinho, talvez de uma vaca. Porém, a história está viva em cada uma dessas pessoas, como naqueles que gostam de prosear, graças ao renascimento da afetividade pela evocação da memória.
Como poderia esquecer os três irmãos que fizeram questão de receber-me na sala da casa do sítio? Dois homens e uma mulher, já de certa idade, e que moravam juntos, sentaram-se em um sofá a minha frente. Ela no meio, ladeada pelos dois, que respeitosamente repousaram os chapéus sobre os joelhos, e de onde me olhavam com curiosidade serena, de mim esperando a iniciativa da conversa. Junto a porteira de entrada do sítio há uma pequena capela, e o motivo do convite para entrar deu-se depois que se aproximaram enquanto eu fotografava. Começaram ali a contar a história, e terminaram na sala, depois do convite para que eu entrasse. Gente que está ali durante toda a vida, e que tanto tem o que dizer sobre a localidade e a própria vida.



Também deles, falando dos ciclos econômicos, a explicação para a existência de capelas, inclusive grandes, hoje praticamente plantadas no meio do nada. Outrora havia ao redor delas um bom número de propriedades produtivas, gente que trabalhava. Nesse cenário elas se tornavam literalmente o centro econômico, cultural e político de povoados prósperos. A edificação de boa parte delas deveu-se à iniciativa privada, e quase sempre de um único homem: o dono da “venda”, do armazém. Na época em que os transportes eram dificultados pela precariedade das estradas e dos meios – quase sempre tracionados a cavalos ou bois – o armazém tinha o mesmo apelo que tem hoje uma loja de conveniência: está “à mão”. Além disso, o “vendeiro” atuava como agente financeiro, pois era junto dele que as pessoas adquiriam as coisas das quais necessitavam. Compras e valores eram anotados em uma caderneta e pagos quando o comprador recebia o salário ou vendia sua safra, não raro, para o próprio vendeiro, que tinha contatos com os compradores das cidades. Nas “vendas” compravam o que lhes era essencial ou o que não compensava ser produzido: óleo, azeite, açúcar, sal, velas, fumo, cachaça, querosene, vinho, fósforo, cerveja e mais alguns itens; e vendiam o excedente da própria produção: café, milho, arroz, feijão, banha de porco, carne seca e cebola.
O vendeiro mandava construir a capela pelos mais variados motivos, o principal deles, porém, consistia nas festas promovidas no “terreiro” em frente ao pequeno templo nos finais de semana e nos dias santos. Tais festas reuniam gente até mesmo de outras redondezas, ocasião em que ele fazia negócios e agradava a freguesia, trazendo a diversão para perto de toda aquela gente. As festas eram os grandes acontecimentos sociais e culturais. Talvez os únicos.



Outro motivo é que a venda e a igreja se tornavam o centro político do povoado e das redondezas. Importante lembrar que não havia energia elétrica, rádio, televisão nem jornal. No centro do povoado, formado pela venda e pela capela, circulavam as notícias, as informações, as ideias e os acordos. Não é sem razão que o Estado também naquele espaço construía e mantinha uma sala de ensino primário. No mesmo lugar, portanto, comércio, instrução, cultura, religião e política. Tudo estava ali, na praça da capela. Isso explica, em alguns casos, a existência de mais de uma capela, em áreas próximas umas das outras. Efeitos da concorrência, da disputa de comerciantes pela preferência de consumidores e de eleitores.
Ah, mas não é apenas disso que os antigos se lembram, e muito bem ainda. Lembram-se, nos dias de festa, da chegada de pessoas a pé, a cavalo, vindas de perto e de longe, portando tochas de bambu com fogo aceso em mexa de estopa embebida em querosene, com que iluminavam o caminho, e, quando agrupadas na chegada, iluminavam também o próprio arraial todo embandeirado, já sob a luz e o calor de grandes fogueiras. A lenha para a fogueira chegava a carro de boi, cujo rangido das rodas ainda é lembrado. Lembram-se das duplas de violeiros que por ali se apresentavam. Lembram-se da catira, que alguns sabem dançar até hoje. Lembram-se das barracas que vendiam pastel, bolo e quentão. Lembram-se principalmente das paixões, pois normalmente nas festas surgiam os flertes, namoros, noivados e casamentos.



Como esquecer? Moças e rapazes se apresentavam com as melhores roupas, certamente. Sob a luz do luar, da fogueira e das tochas deviam muito “faceirar”, como se diz... Interessante, inclusive, que memórias das mulheres sempre mais românticas do que a dos homens. Nessas capelas muitos foram batizados, crismados, muitos estudaram o catecismo e fizeram sua primeira comunhão. Ali se casaram, ali batizaram seus filhos e muitos dentre eles, os seus netos. Mas também ali velaram seus mortos, na maior parte das vezes dentro das próprias casas, embora o preparo do corpo não raramente fosse realizado em algum espaço da venda. As capelas, portanto fizeram parte das alegrias e das tristezas que experimentaram em seu dia a dia ao longo de suas vidas.
Muitas foram incorporadas ao patrimônio da Igreja e, nesse caso, passaram a contar com a assistência da instituição. No passado, por conta das dificuldades de transporte, tinham em anexo um quarto para hospedar o padre, que uma vez por mês vinha rezar a missa e eventualmente ministrar outros sacramentos. Quanto à escola, era na verdade apenas uma sala em que a professora, que vinha da cidade, atendia ao mesmo tempo alunos das quatro primeiras séries do primário. Uma curiosidade: a professora, também por conta da precariedade do transporte, ficava de segunda a sexta na pequena localidade, hospedada em casa de algum sitiante. Foi assim que ocorreram muitos casamentos entre professoras e proprietários rurais. Há quem se lembre disso até hoje, inclusive professoras e sitiantes.
Nem todas as capelas, contudo, tiveram essa origem. Muitos sitiantes construíram capelas como exercício de devoção a um determinado santo ou santa, pedindo bênçãos para a família e para a propriedade. São muitas nessa condição, e cuidadas pelos proprietários com a ajuda de vizinhos que delas fazem uso quando necessitam. Quase todas se situam dentro de propriedades privadas, embora à margem dos caminhos, de modo que podem ser frequentadas por quem assim desejar. Muitas ainda dentro de propriedades, mas reservadas ao uso exclusivo dos proprietários e de seus familiares. A maioria está sem sinos ou imagens de valor. Motivo? Os roubos na área rural são bem mais frequentes do que as pessoas nas cidades podem imaginar, e por essa razão objetos de valor das capelas são guardados na igreja ou em sítios de gente de confiança. Apesar da guarda e dos cuidados de vizinhos próximos, quase todas as capelas costumam ter uma espécie de zelador informal. Alguém que chama para si uma responsabilidade maior em relação a elas.



Não menos curiosas são as pequenas capelinhas que ficam à margem dos caminhos - como a dos três irmãos que me acolheram com imensa simpatia -, a maioria delas construída em memória de alguma tragédia. Quase sempre associadas à morte de alguém. Morte por acidente ou “morte matada”. São inúmeras as histórias, assim como inúmeras são essas capelinhas. No passado serviam de parada de descanso aos cortejos fúnebres. Afinal, cemitério apenas na cidade, de onde a necessidade de transportar o morto a partir da roça. Não havia caixão de madeira e os corpos eram transportados em redes, sustentadas por uma vara de pau e apoiadas nas pontas sobre os ombros de dois homens que em revezamento seguiam com o corpo pelos caminhos, acompanhados de parentes e vizinhos do falecido, que acompanhavam a pé ou a cavalo.
Ainda hoje e na frente delas muita gente realiza pequenas orações, rezas como preferem, principalmente em datas nas quais seria de esperar que fossem às igrejas ou aos cemitérios. A distância que os separa desses lugares, porém, faz da capelinha um símbolo próximo de equivalência, motivo de sua escolha, e certamente também motivo de sua manutenção mínima. No interior delas, muitos santos e cruzes, certamente como parte de promessas recebidas de padroeiros. Instigante, ao menos para mim, foi descobrir por que, nelas, havia tantas imagens quebradas. Explicou-me um velho senhor que isso se deve ao fato de as pessoas não saberem o que fazer com santos que, por acidente, se quebram. Para essas pessoas a capelinha lhes parece um lugar adequado, sagrado, que não lhes deixa na dúvida sobre como adequadamente dispor de uma imagem danificada. Mais um motivo para mantê-las, ainda que apenas para que não caiam pela ação das intempéries.
Sim, pessoas religiosas, mas apartadas umas das outras pela distância. Para elas, as capelas representam a presença da Igreja, talvez de Deus, perto de onde vivem suas vidas aparentemente tranquilas, mas nada fáceis. É evidente que, em estradas de melhor condição, ainda que de terra, a presença de luz elétrica, de telefone, do rádio e, principalmente, da televisão, integrou todos à grande aldeia. Não obstante isso, o cotidiano dessa gente permanece sendo invariavelmente o mesmo. Acordar cedo, cuidar das “obrigações”, almoçar cedo, voltar para a lida, jantar cedo e dormir cedo. Também esse cotidiano integra o ato de passar pelas capelas, não raro fazendo o sinal da cruz e, algumas vezes, ali realizando um pequeno conserto ou passando uma vassoura apressada para tirar a poeira. São poucas e esparsas as atividades que nelas ainda se realizam. Quem delas ainda participa são justamente os velhos, os antigos, aqueles que com elas mantêm mais fortes laços de crença, de fé e de afetividade. Para os jovens, tornou-se mais prático e útil frequentar as igrejas da cidade, pois lá podem usufruir das festas realizadas na praça, ainda bastante disputadas por toda a gente. Afinal, as capelas foram edificadas para levar a igreja até as pessoas nos tempos em que tudo era difícil, principalmente transporte e comunicação.



Com o fim dessa geração de antigos, é difícil prever o que será das capelas. A saber, até quando os novos manterão por elas o respeito pelo status de igrejas. Fato é que perderão o valor de uso e, com a tendência de redução ainda maior de área das já pequenas propriedades rurais, se começará a indagar se não estão tomando espaços que podem ter valor de troca. Lembrando que a maioria está dentro de propriedades privadas, eis o risco de que sejam demolidas, principalmente se a propriedade for comprada por gente “de fora”, sem nenhum compromisso afetivo com elas. Não me refiro aqui a compromisso de caráter histórico, pois isso nem os antigos têm. Aliás, naquela cidade, e não apenas nela, certamente, ninguém tem.
Receio que elas terão o mesmo destino dos pinguins de geladeira. Ficarão fora de moda. Afinal, ocupam espaços que têm valor imobiliário e que dão trabalho, pois exigem manutenção, limpeza, etc.
Enfim, o tempo em que nelas aconteciam as rezas não existe mais, como também não existem mais as festas que eram organizadas em seus terreiros. Aliás, não mais existem, de forma sistemática, desde os anos setenta do século passado. Nada disso tem registro. Os antigos morrem uns depois dos outros. Com eles se vai o que mais significativo existe nisso tudo: suas memorias afetivas, capazes de permitir a recuperação dos momentos significativos daquele tempo.
Eu nada fiz que não fosse o levantamento de meia dúzia delas, e mesmo assim de forma inacabada. Como descobri já na primeira incursão, tudo é muito trabalhoso, cheio de idas e vindas aos mesmos lugares e às mesmas pessoas. Cada capela é uma obra, uma história, uma singularidade. Tudo ali é, ao mesmo tempo tão fácil e, paradoxalmente, tão difícil, pois se trata de compor imagens do passado apenas através de narrativas orais. Sim, porque gente da roça não têm “retratos”. Ninguém dispunha de câmeras. Quando tinham, não havia onde comprar filmes, e quando havia, onde revelar negativo e positivo?
Bem, mas com exceção das capelas, e tudo o mais desapareceu, de onde a importância delas. Foi-se a época dos grandes vendeiros. Hoje, quando muito pequenos botecos que vendem cachaça e cigarros do Paraguai. As pessoas fazem compras no supermercado da cidade, e que depois as entrega nos sítios. As escolinhas são abundantes e as professoras filhas da terra. O que se vê por todo lado são televisores, e as duplas de violeiros que se apresentavam ao vivo foram substituídas pelas fabricadas e mostradas na TV como qualquer outro produto. Aquela gente foi absorvida pela cultura de massa.



Se de um lado tive alguns dissabores na curta caminhada pelas capelas, de outro tive gratas surpresas e bons momentos. Algumas “prosas” facilmente renderiam um livro inteiro, e na forma de um romance encantador. Muitas capelas são sem nenhum apelo estético, é verdade; mas outras são dignas de nota, nem que seja apenas pelo impacto que causam na primeira impressão, como obras de arte, ainda que rústicas. Aliás, fiquei muito curioso com essa arte rústica, mas arte ainda, com seus pedreiros anônimos, que registraram seus talentos em algumas capelas. Tudo isso vai se perder.
Como disse inicialmente eu estava de passagem, e fiz o que fiz motivado pela fuga da vidinha monótona da pequena cidade. Por acaso fui me meter onde não fui chamado. Porém, ao trazer para a minha vida aquelas capelas que nunca fizeram parte de minha história, e menos ainda de meu cotidiano, nelas encontrei a representação mesma da história daquele lugar e daquela gente. Foi-se o café, foi-se a batata, foi-se o porco, como irá o eucalipto, como se foram e ainda irão os antigos. As capelas, todavia, resistem. Por enquanto ainda resistem. Nelas está contida a história da cidade, um museu a céu aberto, testemunho mudo que ninguém por lá ainda se dispôs a dar voz e a registrar. Os antigos podem ser analfabetos. Eles não sabem escrever, é verdade, mas possuem um conteúdo memorial de valor inestimável. Resta-nos apenas esperar que alguém se disponha a explorar esse tesouro, verdadeira herança do passado, para que se seja conservada no presente e preservada no futuro. Afinal, capelas continuam a serviço de suas finalidades sociais, culturais e religiosas.
Sem o devido cuidado, e será feito das capelas o que políticos fizeram com os trens que circularam pelo que um dia foi a poderosa malha ferroviária paulista. Recolheram o material rolante, interromperam a circulação, desativaram estações, pátios, oficinas, e largaram tudo o mais ao sabor das intempéries e dos piratas. Hoje querem apagar as provas remanescentes do que foi um crime, isto é, querem desaparecer com o que restou do abandonado patrimônio ferroviário dos paulistas. Estão chamando de “memória” a preservação em pátio, ou em curta circulação, algum trenzinho a vapor exposto para a curiosidade pública. Por enquanto as capelas “têm” passado. Para políticos os trens da malha ferroviária paulista “são” passado.
Pois é! E ainda dizem que somos um povo sem memória...

Rogério Centofanti
São Paulo, agosto de 2016

NA: todas as imagens fazem parte do acervo do autor, e foram por ele capturadas nas incursões de que fala neste texto.