terça-feira, 27 de dezembro de 2016

O caleidoscópio


“É sempre uma simples questão de atrair as pessoas, quer seja em uma democracia, uma ditadura fascista, um parlamento ou ditadura comunista. Proclamando ou não, as pessoas podem sempre ser trazidas para o comando dos líderes. Isto é fácil. Tudo que você tem que fazer é dizer que elas estão sendo atacadas, censurar os pacifistas por falta de patriotismo e por exporem o país ao perigo. Isto funciona do mesmo modo em todos os países”.
                                                      Hermann Wilhelm Göring


Não há como fechar os olhos para a existência de epidemia de agressividade, de intolerância, de ignorância bruta, de desonestidade de propósitos e de ranço, sempre com pronunciada carga de histeria, sendo propagada por hordas bestificadas que batem panelas, rugem em praças e proliferam feito bactérias pelas redes sociais. Exceto pela diferença de polaridade e fica-me uma sensação de déjà vu, razão, talvez, de lembrar-me do caleidoscópio, instrumento ótico que a cada movimento de um tubo nos oferece à visão diferentes combinações de desenhos geométricos. Vá lá que, neste caso, não se aplica o lado belo (kalos) prometido na composição do nome do instrumento. Tampouco obtém-se geometrias, mas desenhos e configurações que mudam a cada movimento no tubo do aparelho. Diferença de polaridade, sim, pois no passado, ainda sem o fenômeno da internet, e a imagem de hoje faz-me lembrar que já houve surto de forças opostas às atuais, notadamente quando a ditadura militar começava a ruir, e muitos viam-se diante da oportunidade de liberar poderosa energia armazenada por duas décadas de repressão e de opressão. O outro lado encolheu-se desde aquele período, evidentemente, guardando no armário o lado patrulheiro, araponga, censor, agressor, e esperou que o tempo apagasse os rastros e as feridas. A turminha da ditadura de 1964 - importante lembrar - tomou poder pelas armas em meio a acalorados apelos "populares" ao som de panelaços, e em nome da moralidade cívica. Entramos em duas décadas de ditadura sob o clamor da Marcha da Família com Deus pela Liberdade. Déjà Vu, portanto, pois há alguns desses ingredientes na atualidade.

Por que isso, agora? Porque neste momento, quando a promessa de prosperidade com raiz no igualitarismo social começa a fazer água, muitos se acham diante da oportunidade de liberar a energia que neles ficou aprisionada por também aproximadas duas décadas. Agora, e eis a vazão de reações refreadas diante dos efeitos secundários disso que se anunciou como igualitarismo, ou que os ora surtados entendem como tal.

Essas alternâncias vêm de longe, e até parecem cíclicas. Ao final das ditaduras, no início da década de 90, vivia-se o fim da guerra fria, da União Soviética, a derrubada do muro de Berlim, e mantinha-se estranheza aos que perseveravam no apelo ao nacionalismo, mesmo porque o nazismo ainda assombrava pelo menos uma geração, ainda que em parte pelo bombardeio de poderosa propaganda. A época era momento de desfraldar bandeiras em defesa da paz, da liberdade de expressão, da convivência pacifica entre os povos, de abertura das fronteiras aos mercados, e tudo isso deu fôlego à globalização, agora apresentada como fator de insegurança. Tudo conspirava a favor dessa grande paz desde o fim da Segunda Grande Guerra, isto é, desde meados da década de 40. Na Psicologia, por exemplo, área inteira que investigava diferenças comportamentais por gênero, etnia, nacionalidade, etc. simplesmente desapareceu. Inaugurou-se a Psicologia “politicamente correta”, com base no conceito de inclusão, ainda hoje e ao menos por enquanto bastante valorizado. Algo similar aconteceu na Antropologia. Globalizava-se, portanto, em duas dimensões paralelas: econômica e cultural, pelo dinheiro e pela ideologia. 

Ficou difícil, a partir de 1990, se falar em direita e esquerda, mesmo porque no plano liberal o capitalismo tornou-se praticamente hegemônico, mas em meio a medidas que contemplaram o plano socialista de progresso social, quase sempre ancorado nos conceitos de diversidade e de inclusão. Convivência pacífica e civilizada, uma vez que o discurso de redução de desigualdades em nada conflita com interesses liberais, lembrando que toda e qualquer inclusão resulta, invariavelmente, na criação de novos “nichos de consumo”. Esse equilíbrio de interesses, porém, não teve a duração esperada no avançar pelo século XXI, e fez água a partir da crise financeira de meados da primeira década de 2000. Aliás, crise da atual e terceira onda globalista. Como nos ensina Leonid Savan, “a primeira onda de globalização está relacionada com a época de grandes descobertas anteriores à Primeira Guerra Mundial. A segunda, de 1947-1991, é a época do mundo pós Yalta e da Guerra Fria. A terceira começou nos anos 90 e continua até o momento atual gerando uma infinidade de efeitos, como a virtualização da economia, a relocalização e a emergência de sociedades em rede”. O velho muro que separava com clareza direita e esquerda, hoje separa globalistas e nacionalistas, ao menos na Europa, em vários países - dentre eles os Estados Unidos -, mas não no Brasil. Aqui, direita e esquerda são termos que “parecem” separar os que acreditam em riqueza como fenômeno de acumulação individual daqueles que acreditam em riqueza como fenômeno de inclusão social, embora, também, adotado o padrão de consumo como parâmetro de "desenvolvimento". “Parecem”, porém, uma vez que nenhum critério é claro e minimamente definido por nenhum dos dois lados. A esquerda reclama da ausência da “verdadeira” esquerda, e a direita da “verdadeira” direita, seja lá o que queiram dizer com isso. Presume-se que saibam.

Sendo assim, o que desperta no Brasil do presente o “direitismo” que parecia erradicado? Reflexo da insegurança posta por tantas e tamanhas mudanças repentinas na vida econômica, cultural, política e social? Talvez! Afinal, não escapa dia sem que sejamos tomados de surpresa por notícias sobre fatos ou boatos que de uma forma ou de outra agudizam o terror das incertezas. O que cala a esquerda no Brasil? A avalanche de denúncias de corrupção praticada por um partido de esquerda, e que cobriu de vergonha pessoas respeitáveis que nele um dia depositaram sua confiança? Possível! Sobre incertezas poderíamos falar do pensamento de John Kenneth Galbraith, assim como o de Eric John Ernest Hobsbawm, mas não ajudaria em nada para compreender a morbidade da carga predominantemente emocional dessa gente que pratica política como se fosse torcida de futebol. Na prática exercita a convicção irracional do que denomina da “obrigatoriedade de um lado”. Tem “posição”, diz essa gente, mas sempre com base nas poucas alternativas que à ela é dada para escolha, lembrando que não cria nenhuma.


Hieronymus Bosch - Wikipedia
Essas bestialidades todas, afinal, nascem em virtude de incertezas, ou servem-se delas para sair dos corpos onde sempre estiveram aprisionadas? A mim parece clara a segunda hipótese. De qualquer modo, e apenas intuitivamente no homem comum, nesse mesmo que bate panelas, inunda as praças e gralha pelas redes sociais, sempre expressões que contém elementos retrô dos paradigmas políticos conhecidos de um passado não tão distante. Essa gente replica os modelos vivenciados no século findo, motivo, talvez, de não encontrar entre eles anarquistas. Reafirma-se Leonid Savan, pois “no último século observou-se que três ideologias fundamentais estavam lutando entre si, disputando exclusividade e dominação. Primeiro apareceu o liberalismo, que considera sujeito da história o indivíduo desembaraçado do complexo da herança cultural e das relações intersociais. Em reação ao sistema capitalista burguês, expresso pelo liberalismo, apareceram o comunismo e o marxismo. Finalmente apareceu o fascismo, e o nacional-socialismo como uma versão daquele, mas foram os primeiros a desaparecer do cenário internacional imediatamente após a derrota da Alemanha em 1945”.
São essas as referências implícitas, inconscientes, que se encontram digladiando, embora, insisto, intuitivamente: liberais, socialistas e nazistas. Para dizer de outro modo: os que acreditam em cada um por si e deus por todos, os que acreditam que somos todos iguais e que devemos proteger uns aos outros, e os que acreditam que os iguais devem se juntar e subjugar ou aniquilar os diferentes. Nem mesmo se esboça uma discussão sobre o que Aleksandr Dugin denomina “a quarta teoria política”. Como ele diz, e aqui se observa, é que “hoje o mundo é dominado pela impressão de que a política terminou - ao menos a que nós conhecemos”. Eis uma das razões para essa caminhada de regresso: ao invés de caminhar para o futuro o século XXI continua pautado pela Era da Informação, e não pela do Conhecimento, como imaginaram alguns expoentes do visionarismo otimista. Pessoas consomem informações como se fossem salgadinhos em bandeja de festa, chegam mesmo a colecioná-las, e sobre elas formam opiniões como se fossem conhecimentos, mas sobre elas não desenvolvem nada que se possa de fato chamar de conhecimento. É a esse abundante exercício de opinionismo raso que parece referir-se Umberto Eco ao afirmar que “as mídias sociais deram o direito à fala a legiões de imbecis que, anteriormente, falavam apenas no bar, depois de uma taça de vinho, sem causar dano à coletividade. Diziam imediatamente a eles para calar a boca, enquanto agora eles têm o mesmo direito à fala que um ganhador do Prêmio Nobel. O drama da internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade”. De fato, nada a aprender com essas pessoas - exceto pela falta de cuidado o despertar de impulsos sadomasoquistas -, mesmo porque nada mais fazem do que repisar os mesmos bordões. Fica-se e vive-se bem melhor longe delas.
Gira-se um pouco mais o caleidoscópio e nota-se, na mentalidade da maioria desse tipo de gente, a presença constante de dois pressupostos que permeiam todas as suas ideias afetivas: maniqueísmo e determinismo. Afinal, se para essas pessoas a vida nada mais é do que sucessivos capítulos da eterna luta entre o bem e o mal, e no plano terreno e celestial nada acontece por acaso, como imaginar qualquer evento sem polaridade (bem ou mal) e sem motivo, sem causa, sem determinante? Nessa medida, lembrando que como os iguais são “do bem”, e os diferentes “do mal”, o que mais crer senão que o mundo só encontrará paz quando os demônios forem convertidos – para os que creem em livre arbítrio, e disso imaginar que “bem” e “mal” sejam escolhas -, ou aniquilados – para os que creem na condição de “bem” e “mal” como destino? Essa é a matriz dos pensamentos, sentimentos e ações das hordas. Bem e mal, moral e imoral, justo e injusto, e assim conduzem seus juízos e ações de maneira estritamente bipolar, e por isso mesmo beirando a patologia.
É perda de tempo perguntar a essas pessoas o que significa ser “do bem”, “do mal”, e principalmente o que entendem por “moral”. Aliás, perda de tempo é fazer-lhes qualquer pergunta, pois pode lhes suscitar dúvida, e isso é tudo com o que não conseguem conviver, pois pode lhes abalar a crença, única coisa de que dispõem na vida como sinônimo de certeza. Evidente que estão todos convencidos da posse da verdade. Pior do que esses apenas os complotistas, isto é, os atormentados pelas teorias conspiratórias. Lado bom - se assim se pode falar sobre eles - é que não atuam, pois se sentem perseguidos, e nessa medida vivem reclusos em esconderijos. São os megamaniqueistas e os megadeterministas. Se para crentes “não cai folha de uma árvore que não seja pela vontade de deus”, para o complotista nada no reino humano acontece que não seja pela vontade de uma força poderosa, oculta e perversa que manipula todos os cordeis da vida econômica, social e política dos homens. A “força oculta” – e cada complotista tem a sua segundo as próprias idiossincrasias – é a razão primeira, única e última de todas as misérias sociais, materiais e morais das sociedades e nações. Um delírio tornado lógico pelo emprego de uma racionalidade atabalhoada, esquizofrênica, e também com auras de certeza e verdade. Se adotarmos a definição operacional de loucura proposta por Umberto Eco, o conspiracionista é um louco: “O louco procede por curto-circuitos. Tudo para ele demonstra tudo”. Afinal, se não cai folha de uma árvore que não seja pela vontade de deus, como pode alguém não notar a presença dele, uma vez que está em todo e qualquer movimento, inclusive no caleidoscópio? Basta substituir deus por qualquer outra poderosa força mundana, e a “prova” da existência do “mal” está a mostra em todos os cantos. Criaturas como essas não são tão poucas, e neste caso não se “beira” a patologia: mergulha-se nela.
Esses pensamentos e sentimentos são milenares. O que mudou da antiguidade para hoje é que, com os incríveis avanços no plano das comunicações, eles se tornaram visíveis para grande quantidade de pessoas, ao mesmo tempo, e em quase todos os lugares. A internet trouxe junto a essas mensagens repletas de emoções praticamente o mesmo efeito presencial dos fenômenos de multidão, e nisso o aspecto que faltava para completar o ciclo da epidemia. Multidão diz de uma reunião praticamente casual de pessoas, e que na maioria das vezes nem mesmo se conhecem. Os passageiros que compartilham o mesmo carro de um trem ou metrô. Os expectadores de uma mesma sessão de cinema. Até mesmo torcedores de futebol em um estádio. O encontro de muita gente na internet forma uma multidão, embora virtual. Não diria no facebook, pois, apesar das pessoas anexarem “amigos” que nem mesmo conhecem, resta sempre uma relação mais ou menos civilizada entre “curtidas”, “compartilhamentos” e “comentários”, pois entende-se que cada página é um espaço privado. O surto ocorre nos espaços que podem ser frequentados por quem desejar, como no carro de um trem ou metrô, sessão de cinema ou mesmo estádio de futebol. Nesse caso, grupo de desconhecidos - mas dotados dos mesmos pontos de identidade - que luta ferozmente pelo domínio do território que lhe convém ocupar. Isso acontece principalmente com mídias abertas que reservam "espaço colaborativo para comentários”. Tornam-se comunicadores voluntários dessas mídias, o que lhes dá sensação ainda maior de poder, e agora também de prestígio. Evidente que, quanto mais vulgar a mídia, mais vulgares são os comentaristas, incluindo gente praticamente analfabeta. São nesses espaços que, como no passado observou Gustave Le Bon ao tratar do comportamento das multidões, “o indivíduo adquire um sentimento de potência invencível”, cria-se o que também ele denomina de “unidade mental”, e que ocorre, ainda de acordo com ele, por “contágio mental”.
É exatamente o que acontece. Essa legião fica à espera da publicação de qualquer notícia que lhe sirva como sinalizador para o despertar das patologias. Não é qualquer notícia que tem esse ingrediente que funcionará como se fosse feromônio. Ela precisa ter elementos que permitam o exercício do opinionismo colérico, e repleto de indignações dramáticas. Quase sempre de natureza política. Grande negócio para as mídias digitais que usam e abusam desses viciados - uma vez que é exatamente o que são: viciados, dependentes da adrenalina do ódio – para sobre eles fazer dinheiro. Divertido notar que, a exemplo da esquerda, a direita também não confia na imprensa, mas vive de suas notícias, alimenta-se delas, como os peixes de aquário da ração que lhes é fornecida. A mesma imprensa, diga-se, se para a esquerda representa interesses do capital, da burguesia, para a direita representa interesses dos comunistas. De fato, mudam apenas de polaridade na convicção de que o mundo se divide entre os que estão a favor e contra eles.
Em grupos fechados essas notícias são incorporadas em e-mails e enviadas a conhecidos, de quem nada ou pouco se espera. É a militância virtual e a domicílio. Nos noticiários, entretanto, se comportam como pombos que cercam um idoso que todos os dias lhes atira pipocas. Mal a notícia é publicada e minutos depois conta com muitas dezenas de comentários, quase todos expressando a mesma opinião, e também quase sempre a mesma carga emocional. O fenômeno dura pouco, pois abandonam essa notícia e correm imediatamente para outra recém publicada, onde reproduzem as mesmas falas e a mesma agressividade, ainda que indevidas para aquela matéria. Neste caso, e além do que sobre essa gente escreveu Umberto Eco, soma-se a observação de Javier Marías: “sempre houve imbecilidade. Imbecis iam ao bar, tornavam públicas as suas imbecilidades, mas é agora que se organizam, com grande capacidade de contágio. E há um problema agregado: as pessoas se intimidam diante de internautas exaltados e se desculpam sem motivos. E as pessoas sofrem represálias. É truculência. E não há melhor forma da truculência triunfar do que intimidando e amedrontando”. O termo é adequado: truculência. Truculência virtual, mas truculência.
As investidas dos que recorrem aos jogos das explicações com base em causalidades teorizadas para falar sobre esses fenômenos são de pouca ajuda, até por conter ingrediente complotista. Exemplo disso, e recente, foi um escritor inglês atribuir à obra de Milton Friedman - contendo os fundamentos do neoliberalismo - a decisão do Reino Unido, em plebiscito, de divorciar-se da União Europeia, assim como dos americanos guiarem Donald Trump à vitória nas eleições dos Estados Unidos. Como se os interioranos da Inglaterra, País de Gales e Escócia tivessem conhecimento das obras de Friedman para formar opiniões que converteram em votos, assim como os dos interioranos dos Estados Unidos em favor de Trump. Também não leram os franceses do interior que possivelmente elegerão Marine Le Pen, e muito menos os brasileiros que deverão em 2018 conduzir a Brasília atores travestidos de vingadores, justiceiros ou, talvez até lá cansados, de pacificadores. Eleitor não sabe. Eleitor crê, e  toma decisão com base em crença.
Aqui, no país tropical, e não é que um opinionista de província resolveu publicar um texto onde atribui aos paulistas o atraso do Brasil? O pior é que mídia que se diz de conteúdo publicou. Deve o sujeito imaginar que milhões de paulistanos, todos vestidos de terno e gravata, saíram de shoppings, marcharam às urnas e elegeram Doria no primeiro turno, da mesma forma que milhões de paulistas saem todos os dias em entradas e bandeiras Brasil à dentro – subindo o rio Tietê de armas e bagagens - impedindo o desenvolvimento político e econômico do restante do país. Ninguém disse ao infeliz que os barões do café se foram com o crack da Bolsa de Valores de Nova York em 1929, e que os paulistas perderam a revolução constitucionalista de 1932. Nem os paulistas sabem desse poder todo que a criatura alimenta em seu imaginário, mas certamente de tantos outros, e que reagem epidemicamente.
Interessante é que superficialidades como essas rapidamente encontram adeptos, e se transformam em explosões emocionais. Por quê? Justamente porque são superficialidades, estereótipos, simplismos, reducionismos acríticos, mas que apontam o dedo na direção de “culpados”. “É o neoliberalismo”. “É a esquerda”. “É a direita”. “São os incrédulos”. “São as oligarquias”. “É a burguesia”. "Illuminati". Entes, isto é, figuras que são, independente da forma de ser. Abstrações, pois entes imateriais, impalpáveis e intangíveis. Mitos que servem para ocupar o lugar do desconhecido: o “mistério” dos caipiras e o “sistema” dos que se imaginam críticos espertos. Rótulos que parecem significar alguma coisa, e contra os quais se insurgem multidões raivosas movidas apenas por opiniões vagas e muitas vezes contraditórias, mas com força emocional de crenças por eles tomadas como se fossem verdades, certezas, e algumas vezes “reveladas”, pois a eles cochichadas ao pé do ouvido pelo Altíssimo. Afinal, e para minha surpresa, não é que os Carecas do ABC publicaram manifesto no qual declaram arrependimento das práticas trogloditas do passado, e agora reclamam para si raízes ideológicas com bases nacionalistas, e em defesa de Pátria, Deus e Família? Não é que a Frente Integralista Brasileira continua ativa? As vicissitudes do momento fazem com que essa grande fauna saia das sombras, pois agora embalada pelos ventos favoráveis das circunstâncias. Na lógica comum de “a ocasião faz o ladrão”, digo que o espírito de rancor e vingança que habitava faz tempo os armários dessas criaturas fermente e expanda, encontre também ao acaso almas gêmeas no mesmo tormento reprimido, e finalmente protegido pelo efeito de grupo alcance voo com coragem e audácia de desafio e ameaça.
Isso não quer dizer que ideias que se transformam em corrente de pensamento não tenham influência nos comportamentos. Reconheço um autor cuja obra promoveu mudanças no modo de pensar, sentir e fazer de muita gente - Michael Hammer - o criador da reengenharia. Não mudou, porém, porque as pessoas leram seus livros e resolveram tomá-lo como guru, mas porque os executivos e consultores de empresas viram em suas ideias excelente oportunidade no momento que o emprego crescente de tecnologias de informática e robótica tornava obsoleta a produção com base na velha manufatura. Hammer surge na hora apropriada e com ideias convenientes para esse momento. A aplicação de suas ideias mudou a percepção que o trabalhador fazia de si e a incorporação da ideologia do homem multifuncional como meio de sobreviver ao downsizing, isto é, ao enxugamento de cargos que reduzia custos, e ainda aumentava a produtividade dos remanescentes. Downsizing, aliás, único conceito que empresários aprenderam com Hammer – enxugar, demitir. Nem mesmo souberam que Hammer seguia Karl Marx na convicção de que o trabalho modela a psicologia das pessoas, e modela mesmo, de onde seu caráter verdadeiramente revolucionário, isto é, de modificador de valores e condutas. O movimento sindical não viu, as esquerdas não viram, mas ocorreu uma profunda mudança na mente proletária.
Continuamos sob os efeitos dessa revolução. O trabalhador, então convertido em dono do ofício - embora não fosse -, chamou para si a responsabilidade pela própria formação, inclusive com a tarefa de modelar em si o próprio repertório comportamental pré-definido como modelo exigido pelo mercado. Incrível, mas já não bastava vender a força de trabalho. O máximo foi deles exigir a auto formatação de “resiliência”, isto é, de manterem a fleuma em qualquer circunstância, por pior que ela seja. Até hoje proliferam coachs, consultores, “especialistas”, cursos, seminários, livros de autoajuda e toda uma linha de produtos e serviços que visam produzir de forma seriada o modelo de pensamento, sentimento e ação do “profissional de sucesso”, do "homem de sucesso", e mais modernamente do empreendedor, também “de sucesso”, é claro. Não são e tampouco produzem algo similar neles e nos outros, mas o discurso do “hei de vencer” sempre funcionou como cenoura para se fazer acompanhar de tolos. O meio altamente competitivo cria as condições para a definição de "sucesso", como sendo a capacidade do indivíduo "vencer" na selva das relações sociais e econômicas, por isso entendendo a acumulação de bens e a conquista de prestígio social. O binômio Winner & loser passou a guiar valores em toda uma geração, e determinar condutas entre jovens principalmente das periferias. Interessante observar a indignação dos "bem de vida" diante da crescente violência dessa juventude, como se nada tivessem a ver com os valores que permeiam o que classificam como delinquência.

Foi-se a figura do trabalhador. Até igrejas pentecostais criaram “programas” de autodesenvolvimento pessoal e profissional. Eis o homem-ferramenta, mas o movimento sindical não notou, e tampouco os intelectuais e políticos de esquerda. Eis a idealização do self made man encarnada em Doria e Trump. Foi-se o tempo do cristianismo católico, da “comunhão”, quando era mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico alcançar o reino dos céus. O deus pentecostal é dos ricos, para os ricos, e sua graça é medida na vida do crente pelo número de imóveis, de móveis e tamanho do patrimônio que a ele concede, mas em caráter individual, ou quando muito familiar, a essa unidade patrimonialista, e assim tomada desde o surgimento da sociedade liberal burguesa, uma versão brega e depauperada da aristocracia. Na chamada pós-modernidade tudo isso vem chegando aos poucos, desde 1990, e o trabalhador sendo convertido aos poucos ao liberalismo. Também aqui o movimento sindical não deu importância, como tampouco intelectuais e políticos de esquerda.
A globalização, sabe-se, é resultado desse encurtamento de distâncias nas comunicações e nos transportes, de onde a abertura de mercados que gera acirrada competição, facilitação às ideias da reengenharia e a interação cada vez mais pronunciada entre pessoas e povos, o que abre as portas à dominância doutrinária do politicamente correto como forma a reduzir “estranhamentos” por conta de diferenças culturais. Afinal, se o trabalho se torna global, a economia se torna global, isso só “fecha” se os comportamentos – pensamentos, sentimentos e fazeres – se tornarem igualmente globais. O grande problema é que essas revoluções, e que se deram no plano das mentalidades e dos sentimentos, não passaram de artificialidades. Funcionaram enquanto havia pão, ainda que em fartura para alguns e migalhas para muitos. Na incerteza quem tinha deixou de gastar, e passou a poupar até mesmo quireras. Para a massa, e nessa hora, a ideologia do mérito mostrou o que realmente era - mera ideologia - exceto para retardatários e recalcitrantes.
Foram muitos os movimentos do caleidoscópio, é claro, mas a vida passou-se e em entrou no século XXI aos saltos, e uns após outros. Cada vez mais a onda global avançava pelas aldeias, e ameaçava a segurança modorrenta das províncias. As mídias incluíam a todos de forma avassaladora, passando por cima de valores e costumes cultivados e respeitados por muitas gerações. Por conta dessa condição, e a segurança significa retornar ao momento anterior às mudanças que geraram a globalização: proceder à retomada ao ponto onde cada um perdeu-se de si e da relação estável que tinha com os outros. É disso que estamos nos ressentindo. Da  busca de uma versão dos "velhos e bons tempos".
Evidente que esses movimentos todos, e aqui apenas breve e imperfeitamente citados, não passam nem perto da consciência da imensa maioria das pessoas. Elas intuem, pressentem que a situação que já não é boa pode ficar pior, e parte delas sai em busca de “culpados”, pois nem mesmo lhes ocorre o conceito de responsabilidade. Ninguém nunca viu as abstrações de que falam os ditos politizados - oligarquias, neoliberalismo, etc. -, mas vê e até mesmo convive com pessoas e situações concretas que na percepção distorcida dessa gente representa aquelas abstrações. No passado as bruxas, loucos, judeus e leprosos foram a encarnação do mal. Recentemente, e sob argumentos higienistas, os fumantes se tornaram a visibilidade do vício, da fraqueza e da impureza. Nessa época, candidatos a emprego faziam questão de registrar em currículo a condição de não fumantes. Aliás, sempre registram em currículo o repertório comportamental que imaginam ser desejado pelo empregador. Bem, eis o neo-operário andando no arame, e exercitando o camalionismo sutilmente chamado de flexibilidade. As “aberrações” de hoje são todos os demais “tipos” que podem ser “vistos”, estigmatizados, e que foram trazidos com suas perversões ao mundo dos normais - acreditam os adeptos dos bons e velhos tempos - em nome da inclusão. A “culpa”, portanto, é da esquerda, pois ela deu lugar para essas deformidades no meio dos cidadãos e das famílias “de bem”. Algumas extravagâncias, é verdade. Recentemente havia um gay se oferecendo para fazer parte de uma força militar disposta a extinguir o Estado Islâmico. Motivo? A intolerância de radicais islâmicos com gays e lésbicas. No geral, entretanto, as motivações de ódio costumam ser invariavelmente as mesmas, notadamente contra gays, incluindo o gay que deseja combater o Estado Islâmico. Que ironia. A situação chega a ser bizarra.
O ódio é alimentado no cotidiano, onde ocasiões não faltam para seu exercício. Melhor dizendo, onde oportunidades não faltam também para engolir a seco reações que muitos gostariam de manifestar aberta e explicitamente. Afinal, pode-se conter a discriminação, mas nunca, porém, o preconceito, que nada mais é do que um sentimento, e nada se pode fazer em relação a ele, pois formado ao longo da constituição biográfica dos indivíduos. Por outro lado, não existe preconceito que não possa ser legitimado por mecanismos de racionalização. De qualquer forma, fato é que muitas preferências e tendências também abandonaram o armário quando dos ares de liberdade do período pós-ditadura, e  mais oxigenados depois que representantes de esquerda ocuparam governos. Abandonaram esses armários com muito alarde, como se disso dependesse o reconhecimento desses grupos. Além disso, abrigaram-se sob a proteção difusa das políticas do politicamente correto, inegavelmente abraçadas pelas esquerdas, ainda que em boa medida com a finalidade de angariar votos desses "nichos eleitorais". Para muitos conservadores isso soou como provocação "da esquerda" aos valores da moralidade cristã "de nossa gente", e agora reagem como se a esquerda tivesse inventado tais preferências, tendências, e até mesmo as políticas do politicamente correto.  
Algumas opiniões frequentes, talvez uma ou outra por vezes emitida por nós mesmos, mas sem maiores consequências. Em muitas pessoas, porém, tornam-se obsessão, e são tomadas como expressão de certeza e de verdade.


"Ah, mas que vontade de dar um pontapé no traseiro daquelas gordas mórbidas, e que com suas bundas imensas ocupam todo o espaço dos corredores dos supermercados, impedindo o trânsito dos normais. Não bastasse aquele volume absurdo e ainda caminham como hipopótamos, tomando ainda mais espaços pelo fato das gordas levarem na mão direita um cesto de compras, e na esquerda a própria bolsa, normalmente tão volumosa como elas. Não têm pressa. Os demais que se danem. E nem mesmo se pode dizer “sai do caminho, gorda”, pois são obesas, portadoras de uma doença, e não podem ser discriminadas. Muitas “se acham” e ainda acondicionam aquela montanha de banha dentro de short ou mesmo vestido curto, ferindo os olhos mais do que a paciência. Mas não se pode mandar a “periguete balofa” sair do caminho, uma vez que ela é plus size. Agora gorda é fashion".

"Como pode a imprensa dar destaque a essas vagabundas que se oferecem nos ônibus, trens e metrô, e que depois cacarejam quando, no aperto, algum homem nelas se encostam, gritando que foram abusadas? Normalmente umas barangas, mas hoje protegidas por força de lei como se fossem animais em extinção. Hoje, então, que estupro não envolve penetração, e essas vagabundas são todas estupradas, e muitos coitados quase linchados por populares que acreditam no vitimismo das piranhas. Incrível, mas em país que tem algo em torno de 50% de mulheres, e delas fizeram minorias desprotegidas".

"O que mais absurdo do que a oficialização do racismo, no Brasil, com a criação de cotas raciais nas universidades públicas? Que se dê a essa gente diploma de pedagogia e letras e não fará nenhuma diferença. É dar, mesmo, para economizar espaço e dinheiro nas universidades públicas. Agora, lembrar que essa raça irá se formar em medicina e engenharia, profissões de muita responsabilidade, e o futuro de todos nós passa por grandes riscos. Lado bom, para dizer que existe algum, é que esses profissionais de favor, e não de mérito, serão reconhecidos pela cor, e assim podemos fugir deles antes que nos matem".

"Foi-se o direito que pai e mãe de família têm sobre a educação dos filhos. Não há canal de TV que não apresente em suas programações cenas de sexo quase explícito, não raro entre pessoas do mesmo sexo. Não há novela sem gays e lésbicas, assim como nos programas ao vivo. Cantoras famosas abandonam o lar, a família, e aparecem formando casal com outras mulheres. Tudo se transformou em grande putaria, e tratada como se fosse normal, deixando pais perplexos e sem palavras diante dos próprios filhos. Armagedom!" 

"Quem nunca perdeu tempo e paciência em filas de bancos e de supermercados, enquanto observa o movimento dos privilegiados em filas exclusivas para velhos, bichados e mulheres com crianças? Ora, por que mulher precisa se fazer acompanhar de filho pequeno em banco e supermercado? Não precisa, mas mesmo assim leva junto, e ainda ganha status de preferencial por conta dessa insensatez. O que fazem velhos e bichados em bancos e supermercados? Por que não se recolhem em casa, asilo, hospital e onde mais lhes seja apropriado, até que lhes carreguem a vida inútil para o túmulo? 

Do ponto de vista do velho, "o que pode haver de mais absurdo do que entrar em ônibus, trem e metrô e notar que um dos acentos preferenciais está sendo ocupado por um baiano que faz de conta que está dormindo? Bem, isso quando já foi um pouco domado, pois os baianos mais xucros, e que só aprendem a ser gente na porrada, nem fingem que dormem. Ficam ali, sentados, como se o indicador de preferência não lhes dissesse respeito. Não é diferente nas filas preferenciais dos supermercados. Passou da hora de mandar essa raça de volta para seus lugares de origem". 

"Vontade de jogar na rua, e a tapas, casais de viados e de sapatas que ficam aos abraços e beijos em bares e restaurantes. Não basta serem aberrações, e ainda insistem em ostentar, com claro desejo de afrontar e desafiar os normais, as famílias de respeito. Depois, quando moídos a pancadas por gente de bem, e que a esquerda denigre chamando de skinheads, e apenas porque não essa indecência em público, correm para o vitimismo de costume reclamando de intolerância dos homofóbicos. Viados sempre existiram, mas sabiam se comportar. Sabiam se colocar nos devidos lugares, assim como as prostitutas". 

"Mestiço, da zona leste, com camiseta do Corinthians e tatuagem barata no ombro? O que se pode esperar disso?"

"Não dá para aceitar, em programas de debates, que os organizadores convidem participantes sabidamente ateus. Isso é um tapa na cara de nossa sociedade cristã. O que desejam com a presença desses ateus? Afrontar a consciência da imensa maioria da nação? Gerar tolerância em relação a esses fariseus, como se não fossem encarnação do próprio mal? Pior é saber que a maior parte desses anticristos trabalha no magistério, e conduz nossa juventude para o caminho das trevas, que é onde habitam". 

"Vagabundos. Em pleno meio de tarde andando com bicicletas e skates sobre calçadas e em praças. Nem escola, nem trabalho e nem nada. Vagabundos. Maconheiros e vagabundos".

"E não é que uma neguinha, que conseguiu um cargo no Ministério da Educação por ser de esquerda, quase conseguiu impor censura sobre obras de Monteiro Lobato, sob acusação de racismo, e com efeito retroativo? Queria simplesmente que um dos livros de Lobato fosse proibido nas escolas públicas. Neguinha, de esquerda, ocupando cargo importante no governo do PT, e vilipendia a memória de Monteiro Lobato? Se deixar essa gente é capaz de qualquer coisa, e ainda se diz vítima de racismo". 

"Quando é que homens de coragem sairão a caça desses estupradores que escapam pela porta da frente das delegacias e darão fim definitivo nesses doentes, pois incuráveis?"

"E agora ter que aceitar como entretenimento os pancadões regados a álcool, crack, maconha e relações sexuais que essas putinhas faveladas praticam no meio da rua. O que sobra disso são doenças sexualmente transmitidas e crianças bastardas, sem pais, e filhos dessas vadias".

"Até quando os baianos vão continuar ocupando calçadas e praças com seus tabuleiros sujos e improvisados, e vivendo da comercialização de contrabando e de objetos roubados? Ocupam ruas inteiras, bairros inteiros".

"Mas que nojo dessas branquelas vagabundas, marias chuteiras, que por dinheiro se oferecem aos ricos jogadores de futebol, normalmente negros ou mestiços. Putas, é o que são. Quanto a eles, sabe-se que quanto mais neguinho mais se interessa por uma branca, se possível loira, com quem possa clarear a raça. E tem mulher branca que se presta a isso! Vagabundas". 

"O que falta para que um grupo de homens de bem saia à noite, com uma frota de ônibus, e passe na Cracolância recolhendo aquela massa nojenta de noias e seus cobertores encardidos, levando todos para o litoral, onde sejam embarcados em navio, levados para alto-mar, atados uns aos outros pelos pés com correntes pesadas, e lançados para que sumam nas profundezas?"

"Quem foi o louco que aprovou filosofia e sociologia no novo currículo? É agora que os comunistas irão dominar de vez a mente de nossa juventude, além de abusar sexualmente dos alunos mais novos. Essa gente é capaz de tudo. São pedófilos, assim como os padres". 

"A favela pegou fogo? Que ótimo! Tomara que morram todos queimados e não sobre nada nem mesmo para rescaldo. Chega de sustentar esses vagabundos e essas favelas, que são verdadeiros esconderijos para essa bandidagem toda". 

"E dai que o sujeito deu umas porradas na mulher? Afinal, não é mulher dele? Além do mais, alguma coisa a vagabunda aprontou para merecer as pancadas. Depois que leva uns sopapos a vadia corre para os braços das feministas, que vão até uma delegacia da mulher e conseguem medidas protetiva para a piranha".

"Espiritismo, prostituição e homossexualismo. É o que mais se vê nos programas de TV, e apresentados como diversão. Macumbeiros, putas e viados são os personagens que hoje vendem às pessoas. É o fim!"

"Quando vão pegar esses moradores de rua que ocupam as calçadas do centro velho de São Paulo e jogar em algum incinerador? Lixo, lixo." 

"Eleitores da esquerda? Essa negada que se reúne em roda de samba ou de pagode, onde neguinho se acha artista porque toca pandeiro, e neguinha sacode o rabo como se estivesse no cio. Nordestino que fica se arrastando em forró ao som de triângulo e zabumba. Essas são as escórias que votam na esquerda". 

"Como podem as companhias aéreas e as autoridades dos aeroportos permitir o trânsito e embarque daquela baianada usando short e chinelos, como se estivesse em alguma rodoviária clandestina, pois trajes impróprios até mesmo em rodoviárias oficiais?"

"O que está esperando a polícia para apagar esse lixo “de menor”, desovar a carcaça da escória nas favelas, hoje cinicamente chamadas de comunidades, para que sirva de exemplo aos que estiverem pensando em andar no crime? Isso é fazer justiça". 

"Só quem foi ao campus da Universidade de São Paulo viu aquele bando de vagabundos puxando fumo nos gramados, e isso em pleno horário de aula. Brancos, loiros, mas usando cabelos rastafári e vestindo trapos, misturam-se à ralé das cotas raciais. Certamente ficam nos redutos dos vermelhos: história e comunicações".

"Esses travestis fazendo ponto em ruas de grande movimento, praticamente nus, ameaçando a dignidade e respeito de mulheres de família que por ali passam, e ninguém faz nada".

Na percepção da horda, "tudo isso é coisa criada pela esquerda". Decadência, imoralidade, o fim da propriedade e da família. A esquerda responde pela criação e imposição de toda essa modernidade sórdida apresentada como se fosse luz, visando apagar a chama tênue, mas constante da tradição. Bem, tivesse eu a competência e talento de Honoré de Balzac e escreveria volumes sobre biotipos e sociotipos que nutrem essas emoções – elas sim “do mal”, ao menos para eles próprios, pois corrosivas. Exercício de microfísica do poder, de que fala Michael Foucault, tanto em esquerdopatas quanto em direitopatas, e que dela se servem para alimentar e retroalimentar seus vícios. O que me dá sensação de estar em caminho mais ou menos certo foi ter aberto páginas de parte dessa gente no facebook, que é de onde se lançam pelas redes. Quem imagina que se trata da “burguesia”, de gente endinheirada, da “elite”, engana-se. Gente pobre da periferia das metrópoles, e mesmo da periferia de cidades pequenas e médias. Os biotipos são inconfundíveis, bem como as condições de vida que se pode deduzir pelo contexto das fotos que postam em seus perfis. Na melhor das hipóteses proprietários dos pequenos e modestos imóveis que habitam, mas falam deles como se fossem latifúndios a serem preservados da saga invasora dos comunistas. Falam das famílias como se herdassem títulos de nobreza, e de deus como se tivessem ancestralidade direta no monoteísmo hebreu. Todos falam em nome da moral, embora não tenham ideia do que seja ética, e menos ainda da estética como guia de condutas. Engana-se, também, quem imagina que sejam nórdicos, arianos e tenham origem na Atlântida. São híbridos em quase em tudo. Quem imagina que estejam concentrados no eixo sul-sudeste também se engana, pois número expressivo se encontra no eixo norte-nordeste. Fato é que deliram, e falam de um comunismo que ficou nas primeiras décadas do século passado, muito longe do Brasil e principalmente de suas vidas. Instigante, porém, notar que se trata de gente identificada com a elite, ou ao menos com o que imagina representar pensamentos e sentimentos da elite. No dizer dos psicólogos, é como se a transferência das próprias frustrações pudesse lhes remover os traços dos insucessos, dos fracassos, tais como desenhados nas mídias. Fazem mais: no esforço de emprestar autoridade às imbecilidades que publicam, a maioria se diz formada em universidades de renomado prestígio internacional.
Gente sem dinheiro e sem projeção social, de onde, talvez, a indisfarçável necessidade de demonstrar poder, ainda que apenas imaginário. Anônimos. Têm valores tipicamente pequeno-burgueses, e se identificam com aqueles que tomam como modelo de "superioridade". Amam símbolos de força, de riqueza, de “sucesso” e a maioria não é nem mesmo "emergente". Eis os eleitores de Doria e fãs incondicionais de Trump e de Moro, por exemplo. Imaginam-se verdadeiros e sinceros - e não simples grosseiros - de onde aplausos a Bolsonaro, Malafaia e Joaquim Barbosa. São insignificantes, inexpressivos e em boa parte das vezes demonstram a intelectualidade de uma ameba. Mesmo os mais escolarizados dizem invariavelmente as mesmas coisas, como se fosse mantra. São perigosos? Não. Afinal, necessário lembrar que têm sentimento de potência apenas quando em bando, multidão, ainda que virtual. Perigosos talvez se fisicamente juntos, como manada, a exemplo de qualquer outra turba, como as torcidas organizadas. Os verdadeiramente perigosos atuam individualmente, e não cacarejam pelas redes sociais. Tornam-se viciados na troca de ofensas, e são encontrados todos os dias e nos mais diversos horários, embora invariavelmente nos mesmos pontos de encontro. E eis novamente o déjà vu que me faz lembrar do caleidoscópio.
Rogério Centofanti
São Paulo, dezembro de 2016

domingo, 28 de agosto de 2016

Considerações sobre projetos de Memória Social


Há uma ideia difusa, bastante genérica, de que projeto de Memória diga respeito a qualquer atividade relativa ao passado de instituições, atividades, lugares, coisas e pessoas. Não é bem assim. Junto a esse equívoco, o emprego do termo memória surge como se dotado de entendimento “evidente”. Também não é bem assim. A presença da ideia, e da crença na evidência do termo, costuma gerar certo mal-estar quando da discussão de projetos de memória social de instituições, atividades, lugares, coisas e pessoas, em virtude do que chamo de um quase inevitável choque de expectativas.

Em virtude dessas experiências às vezes constrangedoras, resolvi escrever esta breve crônica, na esperança de que ela possa alimentar reflexões. Nela procurarei, de maneira simples, expor meus pontos de vista, mas sempre com a consciência da existência de outros, quiçá melhores.

Bem, vamos às considerações!

Em carta escrita em 1913 e endereçada a Godofredo Rangel, Monteiro Lobato, o paulista ilustre e hoje vilipendiado pela acusação de racismo, dizia que “a história dos historiadores coroados pelas academias mostra-nos só a sala de visita dos povos”. Quanto às memórias, relativas à humanidade, diz Lobato que elas nos mostram sua “alcova, as chinelas, o
Fonte Wikipedia
penico, o quarto dos criados, a sala de jantar, a privada, o quintal”.

Creio que Lobato coloca em 1913, e “sem fazer sala”, o que encontramos nos dias de hoje, embora sem a lucidez e a objetividade do velho mestre. De um lado a versão “oficial”, asséptica, primorosamente bordada de felicidades e de glórias, sala artificialmente decorada para causar boa impressão aos visitantes, e de outro a versão espontânea que passa pelas alegrias, mas também pelas tristezas, pelas simpatias, mas também pelas antipatias, em resumo, pelo antagonismo das forças que cunham as nossas crenças, nossos sentimentos e certamente nossas percepções. Eis a alcova, as chinelas, o penico, o quarto dos criados, a sala de jantar, a privada, o quintal, o interior que no cotidiano se fecha ao olhar dos visitantes.

Interessante notar que ao tempo de Lobato não existia ainda o Marketing e nem o Promoter, figuras modernas que vivem do fabrico e da venda de imagens, e que mesmo diante da consciência pública da artificialidade de suas “promoções”, ainda fazem sucesso. Ao tempo Lobato, porém, iniciava-se a propaganda, os “reclames” e, bem antes disso, certamente, a “história dos historiadores coroados pelas academias”, isto é, pelos arquitetos de versões tornadas oficiais, que passaram pela sua época e que perduram até hoje.

A título de demonstração apenas, ocorre-me comparar, na pintura, duas obras que acompanham as diferenças por Lobato apontadas em prosa. A primeira Independência ou
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Morte
, pintada em Florença, no ano de 1888, pelo paraibano Pedro Américo de Figueiredo e Melo, por encomenda do governo de São Paulo. Uma bela obra, sem dúvida, mas ajeitada para representar um “marco”, “momento histórico”, “gesto heroico”, “instante épico”. No dizer de Lobato, seria a sala de visita de um povo, criada para formar no espírito uma ideia que ficará gravada no imaginário de gerações de brasileiros. Em analogia ao dizer de Lobato, pode-se dizer que aqui se pretende fazer História. Teria sido essa a cena do “grito”? Nunca saberemos.

Muito desse tipo de “arranjo” tem sido feito em nome da “memória”. Há uma nítida confusão entre fazer Marketing sobre realizações de projetos memoriais, isto é, promover a imagem da entidade patrocinadora de projetos memoriais, com fazer dos conteúdos de projetos memoriais atividades de Marketing, isto é, de promoção de pessoas ou instituições. Isso é muito comum nos projetos empresariais, cujos resultados são edições caríssimas, na maior parte das vezes contendo apenas fotos, e que servem exclusivamente para distribuição na forma de “brinde”, de uso para “adorno”, mas sem valor histórico e cultural. Evidente que há um marketing cultural, desportivo e ambiental, mas isso diz respeito à busca de valorização de uma dada “marca” pelo que investe em cultura (memória), esporte e ambiente, e nada há contra isso. Quem, entretanto, está interessado em pessoa, instituição ou atividade como “peça” de Marketing? Ninguém, e esse é o motivo pelo qual os riquíssimos livros de “memória” de empresas são distribuídos como brindes.

A segunda obra, à esquerda, chama-se Saudade, do paulista José Ferraz de Almeida Júnior, exposta na Pinacoteca do Estado de São Paulo. Exceto pelo fato de ser igualmente
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um quadro a óleo sobre tela, e nada mais tem em comum com
Independência ou morte. Não se trata de nenhuma encomenda de governo com a finalidade de criar ou promover um ato heroico. Aliás, ao que se sabe nem mesmo foi pintada por encomenda. Retrata um sentimento que é conhecido de todos, e que pode ser vivenciado por todos: saudade. São as chinelas de que falava Monteiro Lobato, a humanidade que nos aproxima ao quadro pela identidade. Aqui se pretende memória. A moça, uma desconhecida mulher de fazenda, mas o sentimento que expressa é universal, e atemporal. O sentimento que ela expressa pode ser compartilhado por todos nós, de onde seu caráter social.

Sim, isso é memória, atributo de cada um de nós, e na maior parte das vezes recheada de afetividades, algumas alegres, outras tristes, e que nem sempre gostamos de evocar. Muitas vezes nem mesmo as alegres, pois invariavelmente dizem de um tempo que não pode ser reproduzido, exceto na lembrança. O que dizer, então, das tristes? De circunstâncias que não temos como mudar? Na maioria das vezes lembranças que trazem dor, culpa e arrependimento. Amor e ódio, orgulho e humilhação, enfim, o reviver de todas as vicissitudes possíveis nos vastos limites da humanidade. Sim, lembrar é reviver.

Por que, então, essa humanidade espontânea quase nunca é adotada como caminho em projetos memoriais? Habitualmente por dois motivos. O primeiro porque se faz a partir de anônimos, de gente sem “notoriedade”, e o segundo porque essa gente não tem verniz, e os adeptos do memorialismo feito em sala de visitas temem que mostrem a alcova, as chinelas, o penico, o quarto dos criados, a sala de jantar, a privada, o quintal de que falava Lobato. Acredite quem quiser, mas nunca estive em “saia justa” diante desse modelo. Já não posso dizer o mesmo quando diante de egos imensos, quando das memórias o que interessa ao entrevistado, apenas, é o palco para o espetáculo das fogueiras das vaidades.

Essa é a razão principal pela qual recomendo que projetos memoriais sejam edificados em torno de partícipes desinteressados, digamos assim, dos que não precisam fazer da participação uma escada para outra finalidade. Recomento resgatar memórias de uma igreja pelos fiéis, de um clube e associação pelos associados, de um sindicato pelos trabalhadores da categoria por ele representada, de uma escola pelos alunos, e assim sucessivamente. Como queremos saber do passado, certamente pelo resgate de memória de antigos fiéis, associados, trabalhadores, alunos, etc. Eles estiveram presentes nesse passado que nos interessa, viveram momentos desse passado, têm lembranças, e muitas vezes fotografias, cartas, uniformes, e outras coisas que testemunham esse passado, mas na condição de testemunhas vivas. A isso chamo de bom modelo de projeto de Memória Social. Não falseia e não impede a revelação de humanidade contida na História de instituições, pessoas e atividades. Afinal, sempre importante lembrar que não estamos falando do que foi, mas do passado do que ainda é. Queremos apenas saber como foi, o que hoje continua sendo, embora, talvez, com outras peculiaridades.  

O problema dessas versões chics de Memória, na maior parte das vezes traduzidas em obras caríssimas e produzidas com apelo quase exclusivamente visual, tornam-se moda a ser seguida. Desse equívoco resultam, já que falamos em moda, duas tendências: muitas instituições acreditam não ter condições econômicas para lidar com projetos de memória; enquanto muitas outras acreditam que lidar com Memória não tem ciência e, dessa maneira, fazem o que bem entendem. Não conheço instituição capaz de promover projeto dentro dos preceitos teóricos e metodológicos de Memória Social, e ao mesmo tempo capaz de atender ao binômio da boa qualidade e bom custo. Normalmente tratam tais projetos dentro dos limites do Marketing ou do Jornalismo, isto é, como promoção ou notícia. Raramente, porém, nas tênues fronteiras da História e da Literatura. Há, ainda, os que se limitam a arquivar, tendência que tem aumentado: gravam e degravam entrevistas em áudio, gravam entrevistas em vídeos, armazenam fotos e outros objetos dos entrevistados, na esperança que “um dia” esse material seja fonte de pesquisa para historiadores e memorialistas. Talvez!

Algumas outras coisas devem ser também consideradas.

O fato de hoje as tecnologias de gravação de áudio e de imagens estarem ao alcance de quase toda gente, nada mais significa do que apenas isso: acesso fácil e econômico a essas tecnologias. Pode-se dizer o mesmo das facilidades de acesso, produção, edição e publicação de conteúdos pelas redes sociais: apenas facilidades. Todas essas maravilhas, porém, são meios, apenas meios. Gravar e degravar têm dois trabalhos: o de gravar e o de degravar. Gravar em vídeo e guardar tem dois trabalhos: gravar e guardar. Arquivar coisas tem dois trabalhos: organizar e arquivar. Onde, porém, está o trabalho memorial?

Entrevistar pessoas significativas, isto é, que tenham vivência com o que se pretende resgatar por meio de suas memórias, é muito mais do que colocar diante delas colocar um gravador ou filmadora e apertar a tecla rec. Um dos zelos com entrevistas dessa natureza consiste em resgatar vivências que vão além do reduzido foco do interesse temático, isto é, de tratar o entrevistado como se diante de inquérito policial, pois o que se resgata é memória de vida (biografia), dos vínculos diretos com o foco de interesse, mas também com o contexto social, cultural, econômico e talvez político em torno do vínculo restrito.

Lidamos com memória afetiva de pessoas, e não com memória do disco rígido de um computador ou de documentos guardados em algum arquivo físico. Não estamos fabricando imagens, e tampouco registrando notícias que se tornarão descartáveis no dia seguinte. Estamos construindo algo que deverá perdurar no tempo, e no futuro se tornar fonte de pesquisa para historiadores, — de onde a importância de cuidados teóricos e metodológicos —, mas na condição de trabalho que tem começo, meio e fim, isto é, de onde cada entrevista, com depoimentos e material emprestado para aproveitamento (fotos, documentos, etc.), ser uma unidade de trabalho devidamente concluída, dispondo assim de autonomia, embora capaz de conjugar-se a outras de mesma matriz.

O trabalho memorial, portanto, não consiste apenas em gravar, degravar, organizar e arquivar, mas em realizar uma obra memorial, da qual ele, memorialista, é o autor. Também faço emprego de gravador, mas para que o conteúdo gravado sirva de fonte para mim, e não para divulgação a terceiros. Também solicito fotos e documentos de propriedade de entrevistados, mas a título de empréstimo para que eu possa reproduzi-los, mas jamais irei divulgar a terceiros, mesmo sendo reproduções, sem a devida autorização do proprietário. Terminado o trabalho e ele será primeiro apresentado ao entrevistado, e depois publicado apenas se ele autorizar. A obra é do memorialista, mas as memórias são do entrevistado, razão de ser citado, e de nada ser publicado sem a sua concordância. Se não interessa fabricar herói ou mártir, interessa preservar a imagem pública do entrevistado. Afinal, gente que nos recebe na cozinha, nos serve café e, de coração aberto, compartilha não simplesmente informações, mas vivências, eis aí algo que merece todo o nosso respeito.

Não é raro, além da unidade memorial devidamente concluída e entregue, que clientes queiram também o material gravado, fotos, e outros recursos que serviram de fonte para a realização do trabalho. Bem, eu não entrego, e o motivo é simples: o vínculo com a pessoa entrevistada se deu comigo e, nessa medida, eu sou o responsável por tudo que me foi cedido a título de confiança. O cliente receberá material que poderá divulgar por meio eletrônico ou impresso, previamente autorizado para esse fim pelo entrevistado, mas apenas isso. O que faço com o material primário? Apago ou entrego ao entrevistado, pois esse é meu acordo com ele. Aliás, não recomendo a clientes que arquivem e muito menos que divulguem áudio e vídeo. Talvez um trecho, um pequeno trecho, significativo, mas não mais do que isso, e mesmo assim com autorização expressa do entrevistado.

Pelo fato de o trabalho memorial não ser produto de descarte, não faz sentido registrar conteúdos em mídias que sofrem constantes variações tecnológicas, pois sempre há perdas quando os conteúdos são recuperados,  do celuloide ao vhs e deste para o digital, por exemplo. Além disso, produção de áudio e vídeo oscila do minimamente amador ao mais refinado profissionalismo. Essa diferença passa pela quantidade e qualidade técnica de pessoas envolvidas, até a igual quantidade e qualidade de equipamentos empregados. Com essas mídias a qualidade está necessariamente associada ao custo. Confiar a imagem do entrevistado e o conteúdo da entrevista a um produto amador e mal feito é falta de respeito. Com essa convicção, recomendo sem temor a adoção de mídias gráficas, sejam virtuais ou impressas.  Bom lembrar que, desde Gutemberg, os assim chamados gêneros textuais permanecem passíveis de conservação e de reprodução, preservando seus conteúdos interiores, independente de quanto se queira com isso gastar. Não me parece haver lugar para modismos em projetos memoriais.
Rogério Centofanti
São Paulo, agosto de 2016

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Resgate da memória do cotidiano



Creio que pessoas que ainda mantêm pinguim sobre geladeira, mas que o herdaram, não sabem dizer de sua origem. Eles, entretanto, os pinguins, já foram numerosos e, certamente, descartados porque ninguém mais tinha com eles algum tipo de vínculo. Não é de duvidar que foram adquiridos com a primeira geladeira e, nessa medida, tiveram, como ela, um valor simbólico, talvez emblemático. Afinal, houve tempo em que geladeira era coisa de gente “bem de vida”. Também não é de duvidar que a geração de pinguins tenha desaparecido quando os velhos refrigeradores foram substituídos por novos, então tornados populares, e eles, pinguins, tornados kitsch, de mau gosto, assim como os anões de jardim, as toalhinhas de crochê sobre rádios e televisores, e também de crochê os pequenos galos que vestiam o bico dos bules de chá e café. Em sua época, porém, esses adornos tinham presença quase obrigatória, ao menos nas casas de certas camadas sociais, e estiveram presentes em momentos que ainda devem estar registados na memória de uns tantos remanescentes. Um dia fizeram parte do cotidiano de muita gente.
Parece-me ser dessa forma que as coisas vão surgindo e desaparecendo, bem como seu significado e respectivo valor. Ainda bem que é assim, ao menos pela perspectiva de pessoas que têm fascínio pela descoberta da representação das coisas, como eu, pois ganham brilho nos olhos com esse resgate. Para a cultura de uma dada sociedade, entretanto, pena que seja dessa forma. Para quem sabe ouvir essas coisas quase pedem para falar. Diria mesmo que quase gritam, embora a maioria surda não lhes dê ouvidos. Falta quem conte as histórias que junto a elas tiveram, assim como quem queira registrá-las. Certamente são inúmeras, e algumas quase literárias.

Mesmo com o passar do tempo, entretanto, nem tudo vai ao chão ou ao cemitério dos rejeitos. Muitas coisas permanecem. Por teimosia ou apenas por esquecimento resistem ao tempo, coisas ficam expostas ao olhar de todos, mas pouca gente lhes dá atenção. Passam a compor o cotidiano, a fazer parte da paisagem, e ali ficam por ficar, pois os motivos que um dia deram origem à sua construção ou aquisição foram sepultados no passado, muitas vezes longínquo.
Essas coisas, entretanto, esperam pela descoberta dos que gostam de especular, de pesquisar, de reunir informações e a partir delas reconstituir o passado, ainda que por verossimilhança. Assim se dá o retorno à origem das coisas, sejam elas ruas, praças, casas, igrejas, móveis e o que mais persistir em fazer parte do cotidiano. São muitas vezes coisas de grandes proporções, nada discretas, mas no anonimato, e à espera de quem possa novamente lhes emprestar algum sentido.
Com esse entendimento, eu diria que muitas são as coisas no dia a dia que estão por ser reveladas. Não o são, todavia, porque quem ignora não pergunta, e quem sabe não registra. Na ausência quase generalizada de informações, o resgate vai se tornando a cada dia mais difícil, até que se torna praticamente impossível, exceto por sua reconstituição por meio de deduções, de especulações, que resultam em alguma versão crível, mas apenas isso. Antes de chegar a essa fase, porém, nada mais oportuno do que recorrer ao arquivo interior de pessoas que, desde há muito tempo, convivem com coisas mantidas na paisagem, e se mostram dispostas a abrir e a compartilhar o riquíssimo acervo de suas memórias.

Necessário lembrar, entretanto, que recorrer ao arquivo interior das pessoas não equivale a recorrer a um arquivo físico, e nem mesmo a um arquivo digital de algum computador. Não é a busca de informações que podem estar “arquivadas” em algum cartório ou repartição pública, mas daquelas que fizeram parte da vida, no sentido humano, e inevitavelmente repletas de dramaticidades, como todas as experiências verdadeiramente significativas na trajetória de cada um de nós, de nossa biografia.
Ah, e como é boa essa atividade arqueológica. Ela pode não ter o glamour das aventuras fantasiosas de Indiana Jones, mas as incursões pelo sótão de um velho casarão, por exemplo, são reais e consistem em oportunidade de fazer descobertas surpreendentes. Atividade gratificante, é lógico, para quem gosta de investigar, de descobrir. Coisa de gente movida pela curiosidade e sempre com fome de respostas para as suas insaciáveis dúvidas.
Muito mais pela busca de ocupação de tempo, do que por qualquer outra razão, digamos, mais nobre, acabei me abrindo para um tema que não fazia parte do elenco de meus interesses: capelas. Sim, capelas, e ainda assim por mero acaso. Aliás, eu diria que, em boa parte das vezes, essas coisas acontecem por acidente. Surgem! Quando menos se espera e eis que aparecem em nosso caminho: receitas de bolos, porteiras, pontes, instrumentos ou ferramentas e outras manifestações do fazer que perderam atualidade, mas de certo modo continuam presentes.
Morei por algum tempo em uma minúscula cidade do interior de São Paulo. Plantada no alto da Serra da Mantiqueira não tinha mais do que cinco mil almas, sendo a maior parte na área rural. Para meus hábitos metropolitanos, eu diria que uma cidade sem atrativos, isto é, sem nada com que ou com quem eu pudesse exercitar minha habitualidade. Não havia nada de meu interesse. Nenhum destaque nas artes, no artesanato, na gastronomia e nem mesmo nas cenas naturais. A localidade é - pois ainda lá está -, aquilo que Monteiro Lobato disse tratar-se de uma família que se imagina como cidade. Todo mundo conhece todo mundo e, de certa forma se mantém entre eles, uns com os outros, algum grau de parentesco. Ali se nasce por nascer, se cresce por crescer, e se morre de mesmice.

Quando recém-chegado, e como de costume inquieto e curioso, interessei-me por informações sobre alguns aspectos da cidade, mas rapidamente encontrei dois obstáculos que dificilmente eu poderia superar. O primeiro é que as pessoas não gostavam de conversar com estranhos. Incrível, mas desfaziam rodinhas de prosa quando eu me aproximava. Desconversavam ou demonstravam certa hostilidade quando de minha presença. O segundo, depois que consegui interagir com uma ou duas pessoas, é que não gostavam de falar sobre as coisas e as pessoas do lugar. Parecia mesmo o vaticínio de Lobato: uma família que imaginava ser uma cidade. Comportavam-se como se os assuntos locais, como se a história da cidade não fosse da minha conta. Notei, depois, que faziam isso com todos os “de fora”, ainda que residentes. “Da cidade” apenas quem nela nascia, e mesmo assim na condição de descendente de algumas gerações de ali nascidos. Não era apenas por essa razão, porém, que desprezavam minha curiosidade: não tinham respostas para minhas perguntas. Motivo? Nada perguntam. Não era comigo, apenas, que não falavam sobre a cidade. Não falam sobre nada que possa ter algum ingrediente polêmico ou que dê a entender que exista a possibilidade desse ingrediente. Não é sem razão, portanto, que a prosa fica sempre em torno do tempo, do clima e de outras amenidades que não geram a menor possibilidade de interpretação. Nada que não dê ao interlocutor, como resposta, apenas um “é verdade”, “é mesmo”, “de fato”.  Minhas perguntas deveriam ter algum conteúdo de tensão. Talvez muitos conteúdos. Eu não sabia o motivo, mas ao que parece eles sabiam, de onde o silêncio e o isolamento. Hoje eu sei: uma pergunta não deixa de conter uma ponta de crítica.

Inconformado com não ter o que fazer, e percebendo que nada faria na cidade enquanto nela permanecesse, e resolvi desbravar as montanhas, aventurando-me pelas incontáveis estradinhas vicinais que iam e vinham de todos os lados. Incrível, mas não havia nem mesmo um pequeno curso d’água para chamar a atenção, para merecer uma foto. O que se via era terra coberta por plantações de eucalipto, algumas vezes de milho, pequenos pastos abrigando um gado minguado, as mesmas casinhas esparsas, vez ou outra um ajuntado delas denunciando o que talvez se pudesse chamar de povoado, e apenas isso. Nos terrenos altos, a visão de serranias sem fim, paisagem igualmente cansativa, pois invariavelmente sempre a mesma em todos os ângulos.
Na segunda ou terceira incursão notei, finalmente, que havia algo que poderia ser de meu interesse: uma quantidade significativa de capelas de diferentes formas e tamanhos. Agora, orientando o olhar a procura delas, e eis que estavam mesmo por todos os lados. Não havia estradinha sem capela. Algumas vezes mais do que uma na mesma estradinha. Também não havia agrupamento de casas que não gravitassem ao redor de uma capela. Especulando na cidade, depois de enfrentar as dificuldades de costume, disseram-me que havia mais de uma centena delas nos limites do município. Como assim uma centena delas? Bem, se considerasse como amostragem o bom número que encontrei sem muito me distanciar da cidade, talvez isso fosse possível, sim.
Finalmente encontrara algo com que me ocupar enquanto por lá estivesse: desbravaria o sertão a procura de capelas. Iria tornar-me um caçador de capelas. Foi assim que descobri que o município estava dividido em bairros, o que me ajudou a organizar minhas entradas e bandeiras. Evidentemente que não demorou nem uma semana para que todos soubessem e comentassem que “o homem” estava interessado nas capelas da cidade. Deve ter soado estranho o interesse do forasteiro. Mas como pessoas de fora têm manias incompreensíveis, como pintar com cal as pedras das chácaras que compram na região, ninguém mais tenta entender “essa gente”.
— Capelas? Ele agora está fazendo perguntas sobre capelas?
Resolvi começar pelos bairros próximos antes de me aventurar pelos distantes. Antes de tudo porque coisa mais fácil era perder-me nas vicinais, lembrando que são todas muito parecidas, e que não há placas indicando direções. Só na cidade, em suas aproximadamente dez ruas, havia duas igrejas grandes. Bem, três, se eu contasse uma que ficava no alto da pedra, enorme e famosa, onde se dizia ter aparecido, no passado, uma santa — a virgem da pedra. Talvez o grande número de capelas se devesse à religiosidade daquela gente. Mesmo assim, era desafiador imaginar algo em torno de cem delas. Cem capelas para aproximadamente cinco mil vidas?

Eu não tinha ideia do que iria encontrar e a rigor nem mesmo o que iria fazer. Já trabalhara em vários projetos memoriais, mas nunca em algum que tivesse capelas, e ainda tantas. Normalmente com ofícios, com biografias, mas nunca com desconhecidos, inclusive uns dos outros, esparsos, e tendo capelas como temática. Minimamente fotografá-las, obter algumas informações sobre suas origens, e talvez indicar a localização de cada uma delas em um mapa do município que, com a habitual dificuldade, consegui obter junto à prefeitura. Pretendia, obviamente, entender qual a relação afetiva das pessoas com aquelas igrejinhas, mas nunca havia me relacionado com pessoas do campo. Para bem da verdade, o que eu queria mesmo, naquele momento, era ocupar meu tempo com alguma atividade gratificante, que devolvesse minha alegria e me libertasse do insuportável tédio do lugar.
Comecei pelo começo, equipado com carro, câmera e objetivas, bússola e gravador, mapa, papel, caneta e prancheta. Parti assim ao encontro da primeira capela, a mais próxima, pela qual já havia passado algumas vezes em minhas andanças, e que ficava em uma ladeira bastante íngreme.

Pequena e abandonada estava plantada à beira de um barranco alto. Estacionei o carro ao pé do barranco e fiquei pensando em um jeito de subir até a capelinha. Desnecessário dizer que forma física para escalada de barrancos e para percorrer terrenos acidentados não faz parte do conjunto de minhas poucas habilidades. Isso sem contar o medo de uma cobra, de um boi solto no pasto, ou mesmo de estar invadindo as terras de alguém. Olhando melhor, percebi que ela não fora construída à beira do barranco, mas seguramente à beira de um caminho, cujo leito, com o passar dos anos, e pela ação de motoniveladoras, foi sendo progressivamente rebaixado para manter a transitabilidade. Foi assim que essa, e não apenas essa — pois encontrei várias na mesma condição —, permaneceu ao alto, com a estradinha bem abaixo do que, com o tempo, se tornou um barranco. Além disso, notei que estava vendo a capela pelo fundo, pois a frente deveria estar voltada para o interior da propriedade, e que estava cercada por arame farpado.
Por onde subir? Por onde entrar? Não havia por perto nenhuma casa onde alguém pudesse dar informação, talvez me acompanhar, ou ao menos autorizar minha entrada. Como, afinal, se comportar frente a uma capela fechada? Entrar, fotografar, medir ou não fazer nada disso? 

Como o desnível entre o terreno e a estrada parecia diminuir na medida em que se descia a estradinha, segui em frente de carro e estacionei novamente, agora onde podia, com certa facilidade, acessar o terreno que me parecia ser o da capela. Mais uma vez sem gente por perto, peguei a tralha com material de trabalho e com dificuldade passei pelo meio de arames farpados. Beirando a estrada, por dentro do terreno, e fui em direção à capela. De fato, a porta fazia frente para o interior da propriedade, e apenas um pequeno cruzeiro de madeira indicava tratar-se de uma capela, e não de um pequeno paiol, engano que cometi pelo menos duas vezes.
Feinha, a coitada, não passava de uma acanhada construção retangular, coberta por um telhado de duas águas, com telhas coloniais — que na região chamam de “comuns” — sobre caibros roliços de galhos de eucalipto, e que era possível ver de fora. Uma reforma, portanto, pois não deveriam ser os originais. As paredes de tijolos de barro, típicos dos ainda hoje empregados em paredes e cobertos com reboco. Na capela, porém, como os tijolos estavam à vista, estava claro que as paredes nunca foram acabadas. A julgar pelo tipo e tamanho dos tijolos, a construção não devia ser muito antiga. O batente e as folhas da porta, embora rústicos, também não pareciam antigos. Nem janela nem entrada de ar e luz além da única porta, que parecia apenas encostada.
E estava! Bastou empurrá-la para que se abrisse, gemendo, como se reclamasse, pelo atrito com o piso de tijolos crus espelhados. Pela quantidade de poeira e de teias de aranha, não se podia duvidar do abandono, da ausência de vida em seu interior. Um pequeno oratório de madeira praticamente desmontando, duas ou três imagens, uma cruz encostada em um dos cantos do fundo e eis tudo que havia em seu interior. Foi difícil fotografar. Não havia ângulo que se pudesse valorizar, mesmo porque sob a luz do sol do meio dia. Nem de perto, nem de longe, nem de fora, nem de dentro. Nenhum detalhe que chamasse atenção. Mesmo assim passou por uma sessão de fotos para posterior análise e escolha. Também medi e registrei em papel a planta baixa, onde apontei o norte magnético com auxílio de uma bússola. Puxei novamente a porta, guardei na bolsa minha tralha e voltei para o carro. Por sorte o terreno estava “limpo”, isto é, coberto apenas pelo capim baixo que servia de pasto a bois e cavalos, embora não tivesse visto nem um nem outro. Ainda bem, pois me sinto seguro com eles soltos por perto.

Voltei por onde entrei e, mais uma vez, venci os fios de arame farpado. Retornei ao carro e segui em frente pela estradinha. Logo que teve início a subida de um novo morro havia, em sua encosta direita, uma casa. Nela observei a presença de um homem na varanda. Isso me deu a ideia de parar e fazer perguntas. Antes, porém, que esboçasse a primeira, e antes mesmo do tradicional cumprimento de boa tarde, disse-me o homem:
— O senhor vai encontrar capela melhor para retrato, moço.
Incrível, mas meus movimentos estavam sendo observados. Agradeci a informação, e perguntei o que ele sabia sobre aquela capela. Antes de responder, porém, ele queria saber quem eu era e qual meu interesse com fotos de capela. Identifiquei-me e contei-lhe dos motivos que me levaram ao interesse por capelas, sendo aquela a primeira a ser fotografada. Ele riu, sem disfarçar o descrédito que minha história lhe inspirou, embora não tivesse contestado. Só mais tarde fui entender que é incompreensível para aquela gente aceitar que alguém possa se dedicar a alguma coisa sem interesse. Nessa medida, se alguém diz que não tem nenhum interesse definido sobre algo, só pode estar mentindo, fazendo o ouvinte de bobo e, como não faltam histórias de gente da cidade que gosta de passar a perna em gente da roça, há sempre que se lidar com essa desconfiança.

Bem, o homem ainda jovem — ele tinha algo em torno de trinta anos —, baixo e atarracado, nada sabia sobre a origem da capela. Sabia apenas que ela lá estava quando ele nasceu, e lembrava-se dela exatamente do jeito que ainda está hoje, pois passara por ali todos os dias na ida e vinda da escola. Lembrava-se, também, de que o madeirame de sustentação do telhado foi trocado havia não mais de dez anos. Nunca viu reza, missa, festa ou qualquer outra atividade na capela ou perto dela. Olhou-me com espanto e reprovação quando lhe perguntei por qual motivo manter uma capela se nada era nela celebrado. 
— É uma igreja, homem, respondeu-me de pronto.
Bastou-me constatar tal reação, para que eu entendesse o motivo da preservação das capelas, ainda que no meio do nada, e ainda em meio à gente que não demonstra qualquer vocação preservacionista. E não preserva mesmo! Prova disso estava na cidade, onde as casas antigas passavam quase todas por modernização, isto é, por desconfiguração: janelas de madeira trabalhadas eram substituídas por similares de alumínio. Adoravam a ideia do novo, do moderno, e pareciam envergonhados com o que tinham de antigo, e isso se aplicava a tudo: casas, móveis, eletrodomésticos, etc. Ah, mas capelas eram igrejas, podiam ser reformadas, mas nunca postas no chão. Foi bom saber!
Quanto àquela primeira capela, disse que quem podia saber de sua origem era seu pai, mas havia falecido. Quando vivo, porém, dizia que foi construída no lugar onde um sitiante fora morto a facadas por um desafeto. Ele próprio, porém, o filho, tinha dúvidas quanto à veracidade dessa trágica versão. Disse-me que era comum o povo ouvir um caso e ir passando adiante como se fosse verdade. Indicou-me caminhos que levariam a capelas boas para “retratos”. Boas, na opinião dele, porque foram reformadas e estavam como novas. Bem, justamente as que não me interessavam, mas eu nada disse.
Embora fosse importante fazer o levantamento memorial de cada uma das capelas existentes, na primeira empreitada notei que não teria tempo para fazer esse trabalho enquanto estivesse na região, pois não seria nada fácil. Do ponto de vista tipicamente estrutural, entretanto, e no que dizia respeito a períodos e motivos de construções, notei que não havia muito mais o que saber depois da terceira ou quarta incursão.
Ainda bem, pois na maioria das que estive, e que não passou de meia dúzia, a canseira de subir e descer barrancos, passar pelo meio de fios de arame farpado, andar pelo meio de mato, caminhar por pastos com bois soltos me olhando, tropeçar, ser ferroado por abelhas e ficar coberto de pó e teias de aranhas foi uma constante. Foram raras as vezes que cheguei acompanhado nas capelas, e que estavam limpas e organizadas.
Quase sempre atendido na porteira de sítios ou chácaras, mas vez ou outra na varanda ou mesmo na sala, com direito a café e até pedaço de bolo, ouvi histórias interessantes, mas sempre com a diferença de gente nova e antiga. Incrível, mas em um sítio, que ficava do outro lado da estrada onde se encontrava uma velha capela, e que por lá estava desde a segunda década o século passado, e o homem que me atendeu, de aproximadamente quarenta anos de idade, nada ou quase nada sabia sobre ela. Bem, não sei se alguém da mesma idade, e que mora na calçada do outro lado da rua e em frente a uma velha igreja, em São Paulo, sabe algo sobre ela. Estranho, ali, que construções apenas a capela e a casa do sitiante. O restante era um imenso pasto com algumas árvores esparsas.

De qualquer forma, e de modo geral, os períodos e motivos das construções das capelas eram mais ou menos os mesmos, o que não significava, é claro, que a exemplo das pessoas, cada uma delas não tivesse sua própria história. Diria mais: apenas pelos estilos, tamanhos e materiais empregados nas construções, e haveria muito a explorar na história de cada uma delas, ou ao menos em boa parte delas. Lamentavelmente não encontrei um único construtor de capelas. Queria saber de onde surgia a inspiração arquitetônica de algumas, mas, quando muito, encontrei quem tivesse participado da reforma de uma ou outra, embora ninguém que tivesse a menor ideia de restauro, o que infelizmente redundou na desfiguração de muitas. Encontrei porcelanato onde havia assoalho de ipê, tela de plástico sobre respiro de parede, altar de concreto onde havia prancha de peroba maciça, porta de vidro onde havia madeira, telha francesa onde havia colonial, acrílico no lugar de vidro e algumas outras “reformas”, que é como chamavam.
Conheci quem com orgulho me falou da construção de uma capela novinha em folha no lugar da “velha”, de pau a pique, e dotada de madeirame talhado com enxó. O motivo do orgulho é que a “nova”, sendo maior, foi construída ao redor “velha”, derrubada tão logo a novata ficou pronta. Ah, sim: das madeiras talhadas com enxó fizeram carvão. Uma história difícil de ouvir sem cair em lágrimas.  Também ouvi, é verdade, quem dessas práticas falasse com pesar. Foi proseando com os “antigos” – como por lá se referem aos mais velhos —, que eu soube o motivo da construção de tantas capelas.

O município vem sofrendo significativa redução de habitantes desde meados da década de quarenta. A região floresceu no ciclo do café, quando atraiu trabalhadores de outras partes do Estado e mesmo do exterior, a exemplo dos imigrantes da Itália. Porém, por ser muito montanhosa, não tardou para que o café fugisse para as terras férteis e planas do oeste. Com o fim do café, a cidade nunca mais encontrou um novo ciclo econômico que pudesse lhe dar alguma pujança. Houve o plantio da batata, mas perdeu para planícies onde se podia fazer uso de maquinário agrícola. Houve também a suinocultura, mas não sobreviveu ao tempo das fiscalizações, pois a região está toda ela em área de preservação ambiental. Apesar de fazer parte do circuito das águas, não tem águas, e a vocação turística está perto de zero pela mais completa incompetência dos “da terra” em lidar com os “de fora”.
Hoje a cidade está quase toda orientada ao plantio de eucalipto, que não gera emprego nem renda, exceto para as carvoarias clandestinas que estão sempre envolvendo o nome da cidade em notícias sobre a prática de trabalho análogo ao de escravo. A continuar assim, e será o que o já citado Monteiro Lobato chamaria de cidade morta. As capelas? São quase todas da época áurea do município, quando, no dizer dos antigos, a região tinha muita gente, trabalho e alguma renda. Isso, porém, apenas na análise dos antigos, pois os novos nada sabem sobre isso nem sobre as capelas e nem sobre a idade de ouro da região. Os novos são os que vão e vêm pelas estradinhas vicinais em suas motocicletas, em cujas garupas carregam motosserras. É a vida voltada para o plantio e à derrubada de eucalipto. Bobagem perguntar-lhes sobre as capelas.
— Melhor o senhor perguntar para o pai. Ele é antigo.

Ouvi histórias de pessoas que atravessaram todos os ciclos econômicos, que viram os filhos partirem para a capital e outras cidades em busca de trabalho - quando do início da industrialização paulista -, que viram as terras de seus pais se tornarem economicamente inviáveis como consequência da partilha entre irmãos, e da divisão de terras pequenas em pedaços ainda menores para serem vendidas para os de fora formarem suas chacrinhas de finais de semana. Histórias de pessoas que ali continuam por teimosia ou por falta de escolha, pois não têm terra nem para plantar um pouco de cebolas, arroz e feijão para a própria subsistência. Quando muito a criação de algumas galinhas, de um porquinho, talvez de uma vaca. Porém, a história está viva em cada uma dessas pessoas, como naqueles que gostam de prosear, graças ao renascimento da afetividade pela evocação da memória.
Como poderia esquecer os três irmãos que fizeram questão de receber-me na sala da casa do sítio? Dois homens e uma mulher, já de certa idade, e que moravam juntos, sentaram-se em um sofá a minha frente. Ela no meio, ladeada pelos dois, que respeitosamente repousaram os chapéus sobre os joelhos, e de onde me olhavam com curiosidade serena, de mim esperando a iniciativa da conversa. Junto a porteira de entrada do sítio há uma pequena capela, e o motivo do convite para entrar deu-se depois que se aproximaram enquanto eu fotografava. Começaram ali a contar a história, e terminaram na sala, depois do convite para que eu entrasse. Gente que está ali durante toda a vida, e que tanto tem o que dizer sobre a localidade e a própria vida.



Também deles, falando dos ciclos econômicos, a explicação para a existência de capelas, inclusive grandes, hoje praticamente plantadas no meio do nada. Outrora havia ao redor delas um bom número de propriedades produtivas, gente que trabalhava. Nesse cenário elas se tornavam literalmente o centro econômico, cultural e político de povoados prósperos. A edificação de boa parte delas deveu-se à iniciativa privada, e quase sempre de um único homem: o dono da “venda”, do armazém. Na época em que os transportes eram dificultados pela precariedade das estradas e dos meios – quase sempre tracionados a cavalos ou bois – o armazém tinha o mesmo apelo que tem hoje uma loja de conveniência: está “à mão”. Além disso, o “vendeiro” atuava como agente financeiro, pois era junto dele que as pessoas adquiriam as coisas das quais necessitavam. Compras e valores eram anotados em uma caderneta e pagos quando o comprador recebia o salário ou vendia sua safra, não raro, para o próprio vendeiro, que tinha contatos com os compradores das cidades. Nas “vendas” compravam o que lhes era essencial ou o que não compensava ser produzido: óleo, azeite, açúcar, sal, velas, fumo, cachaça, querosene, vinho, fósforo, cerveja e mais alguns itens; e vendiam o excedente da própria produção: café, milho, arroz, feijão, banha de porco, carne seca e cebola.
O vendeiro mandava construir a capela pelos mais variados motivos, o principal deles, porém, consistia nas festas promovidas no “terreiro” em frente ao pequeno templo nos finais de semana e nos dias santos. Tais festas reuniam gente até mesmo de outras redondezas, ocasião em que ele fazia negócios e agradava a freguesia, trazendo a diversão para perto de toda aquela gente. As festas eram os grandes acontecimentos sociais e culturais. Talvez os únicos.



Outro motivo é que a venda e a igreja se tornavam o centro político do povoado e das redondezas. Importante lembrar que não havia energia elétrica, rádio, televisão nem jornal. No centro do povoado, formado pela venda e pela capela, circulavam as notícias, as informações, as ideias e os acordos. Não é sem razão que o Estado também naquele espaço construía e mantinha uma sala de ensino primário. No mesmo lugar, portanto, comércio, instrução, cultura, religião e política. Tudo estava ali, na praça da capela. Isso explica, em alguns casos, a existência de mais de uma capela, em áreas próximas umas das outras. Efeitos da concorrência, da disputa de comerciantes pela preferência de consumidores e de eleitores.
Ah, mas não é apenas disso que os antigos se lembram, e muito bem ainda. Lembram-se, nos dias de festa, da chegada de pessoas a pé, a cavalo, vindas de perto e de longe, portando tochas de bambu com fogo aceso em mexa de estopa embebida em querosene, com que iluminavam o caminho, e, quando agrupadas na chegada, iluminavam também o próprio arraial todo embandeirado, já sob a luz e o calor de grandes fogueiras. A lenha para a fogueira chegava a carro de boi, cujo rangido das rodas ainda é lembrado. Lembram-se das duplas de violeiros que por ali se apresentavam. Lembram-se da catira, que alguns sabem dançar até hoje. Lembram-se das barracas que vendiam pastel, bolo e quentão. Lembram-se principalmente das paixões, pois normalmente nas festas surgiam os flertes, namoros, noivados e casamentos.



Como esquecer? Moças e rapazes se apresentavam com as melhores roupas, certamente. Sob a luz do luar, da fogueira e das tochas deviam muito “faceirar”, como se diz... Interessante, inclusive, que memórias das mulheres sempre mais românticas do que a dos homens. Nessas capelas muitos foram batizados, crismados, muitos estudaram o catecismo e fizeram sua primeira comunhão. Ali se casaram, ali batizaram seus filhos e muitos dentre eles, os seus netos. Mas também ali velaram seus mortos, na maior parte das vezes dentro das próprias casas, embora o preparo do corpo não raramente fosse realizado em algum espaço da venda. As capelas, portanto fizeram parte das alegrias e das tristezas que experimentaram em seu dia a dia ao longo de suas vidas.
Muitas foram incorporadas ao patrimônio da Igreja e, nesse caso, passaram a contar com a assistência da instituição. No passado, por conta das dificuldades de transporte, tinham em anexo um quarto para hospedar o padre, que uma vez por mês vinha rezar a missa e eventualmente ministrar outros sacramentos. Quanto à escola, era na verdade apenas uma sala em que a professora, que vinha da cidade, atendia ao mesmo tempo alunos das quatro primeiras séries do primário. Uma curiosidade: a professora, também por conta da precariedade do transporte, ficava de segunda a sexta na pequena localidade, hospedada em casa de algum sitiante. Foi assim que ocorreram muitos casamentos entre professoras e proprietários rurais. Há quem se lembre disso até hoje, inclusive professoras e sitiantes.
Nem todas as capelas, contudo, tiveram essa origem. Muitos sitiantes construíram capelas como exercício de devoção a um determinado santo ou santa, pedindo bênçãos para a família e para a propriedade. São muitas nessa condição, e cuidadas pelos proprietários com a ajuda de vizinhos que delas fazem uso quando necessitam. Quase todas se situam dentro de propriedades privadas, embora à margem dos caminhos, de modo que podem ser frequentadas por quem assim desejar. Muitas ainda dentro de propriedades, mas reservadas ao uso exclusivo dos proprietários e de seus familiares. A maioria está sem sinos ou imagens de valor. Motivo? Os roubos na área rural são bem mais frequentes do que as pessoas nas cidades podem imaginar, e por essa razão objetos de valor das capelas são guardados na igreja ou em sítios de gente de confiança. Apesar da guarda e dos cuidados de vizinhos próximos, quase todas as capelas costumam ter uma espécie de zelador informal. Alguém que chama para si uma responsabilidade maior em relação a elas.



Não menos curiosas são as pequenas capelinhas que ficam à margem dos caminhos - como a dos três irmãos que me acolheram com imensa simpatia -, a maioria delas construída em memória de alguma tragédia. Quase sempre associadas à morte de alguém. Morte por acidente ou “morte matada”. São inúmeras as histórias, assim como inúmeras são essas capelinhas. No passado serviam de parada de descanso aos cortejos fúnebres. Afinal, cemitério apenas na cidade, de onde a necessidade de transportar o morto a partir da roça. Não havia caixão de madeira e os corpos eram transportados em redes, sustentadas por uma vara de pau e apoiadas nas pontas sobre os ombros de dois homens que em revezamento seguiam com o corpo pelos caminhos, acompanhados de parentes e vizinhos do falecido, que acompanhavam a pé ou a cavalo.
Ainda hoje e na frente delas muita gente realiza pequenas orações, rezas como preferem, principalmente em datas nas quais seria de esperar que fossem às igrejas ou aos cemitérios. A distância que os separa desses lugares, porém, faz da capelinha um símbolo próximo de equivalência, motivo de sua escolha, e certamente também motivo de sua manutenção mínima. No interior delas, muitos santos e cruzes, certamente como parte de promessas recebidas de padroeiros. Instigante, ao menos para mim, foi descobrir por que, nelas, havia tantas imagens quebradas. Explicou-me um velho senhor que isso se deve ao fato de as pessoas não saberem o que fazer com santos que, por acidente, se quebram. Para essas pessoas a capelinha lhes parece um lugar adequado, sagrado, que não lhes deixa na dúvida sobre como adequadamente dispor de uma imagem danificada. Mais um motivo para mantê-las, ainda que apenas para que não caiam pela ação das intempéries.
Sim, pessoas religiosas, mas apartadas umas das outras pela distância. Para elas, as capelas representam a presença da Igreja, talvez de Deus, perto de onde vivem suas vidas aparentemente tranquilas, mas nada fáceis. É evidente que, em estradas de melhor condição, ainda que de terra, a presença de luz elétrica, de telefone, do rádio e, principalmente, da televisão, integrou todos à grande aldeia. Não obstante isso, o cotidiano dessa gente permanece sendo invariavelmente o mesmo. Acordar cedo, cuidar das “obrigações”, almoçar cedo, voltar para a lida, jantar cedo e dormir cedo. Também esse cotidiano integra o ato de passar pelas capelas, não raro fazendo o sinal da cruz e, algumas vezes, ali realizando um pequeno conserto ou passando uma vassoura apressada para tirar a poeira. São poucas e esparsas as atividades que nelas ainda se realizam. Quem delas ainda participa são justamente os velhos, os antigos, aqueles que com elas mantêm mais fortes laços de crença, de fé e de afetividade. Para os jovens, tornou-se mais prático e útil frequentar as igrejas da cidade, pois lá podem usufruir das festas realizadas na praça, ainda bastante disputadas por toda a gente. Afinal, as capelas foram edificadas para levar a igreja até as pessoas nos tempos em que tudo era difícil, principalmente transporte e comunicação.



Com o fim dessa geração de antigos, é difícil prever o que será das capelas. A saber, até quando os novos manterão por elas o respeito pelo status de igrejas. Fato é que perderão o valor de uso e, com a tendência de redução ainda maior de área das já pequenas propriedades rurais, se começará a indagar se não estão tomando espaços que podem ter valor de troca. Lembrando que a maioria está dentro de propriedades privadas, eis o risco de que sejam demolidas, principalmente se a propriedade for comprada por gente “de fora”, sem nenhum compromisso afetivo com elas. Não me refiro aqui a compromisso de caráter histórico, pois isso nem os antigos têm. Aliás, naquela cidade, e não apenas nela, certamente, ninguém tem.
Receio que elas terão o mesmo destino dos pinguins de geladeira. Ficarão fora de moda. Afinal, ocupam espaços que têm valor imobiliário e que dão trabalho, pois exigem manutenção, limpeza, etc.
Enfim, o tempo em que nelas aconteciam as rezas não existe mais, como também não existem mais as festas que eram organizadas em seus terreiros. Aliás, não mais existem, de forma sistemática, desde os anos setenta do século passado. Nada disso tem registro. Os antigos morrem uns depois dos outros. Com eles se vai o que mais significativo existe nisso tudo: suas memorias afetivas, capazes de permitir a recuperação dos momentos significativos daquele tempo.
Eu nada fiz que não fosse o levantamento de meia dúzia delas, e mesmo assim de forma inacabada. Como descobri já na primeira incursão, tudo é muito trabalhoso, cheio de idas e vindas aos mesmos lugares e às mesmas pessoas. Cada capela é uma obra, uma história, uma singularidade. Tudo ali é, ao mesmo tempo tão fácil e, paradoxalmente, tão difícil, pois se trata de compor imagens do passado apenas através de narrativas orais. Sim, porque gente da roça não têm “retratos”. Ninguém dispunha de câmeras. Quando tinham, não havia onde comprar filmes, e quando havia, onde revelar negativo e positivo?
Bem, mas com exceção das capelas, e tudo o mais desapareceu, de onde a importância delas. Foi-se a época dos grandes vendeiros. Hoje, quando muito pequenos botecos que vendem cachaça e cigarros do Paraguai. As pessoas fazem compras no supermercado da cidade, e que depois as entrega nos sítios. As escolinhas são abundantes e as professoras filhas da terra. O que se vê por todo lado são televisores, e as duplas de violeiros que se apresentavam ao vivo foram substituídas pelas fabricadas e mostradas na TV como qualquer outro produto. Aquela gente foi absorvida pela cultura de massa.



Se de um lado tive alguns dissabores na curta caminhada pelas capelas, de outro tive gratas surpresas e bons momentos. Algumas “prosas” facilmente renderiam um livro inteiro, e na forma de um romance encantador. Muitas capelas são sem nenhum apelo estético, é verdade; mas outras são dignas de nota, nem que seja apenas pelo impacto que causam na primeira impressão, como obras de arte, ainda que rústicas. Aliás, fiquei muito curioso com essa arte rústica, mas arte ainda, com seus pedreiros anônimos, que registraram seus talentos em algumas capelas. Tudo isso vai se perder.
Como disse inicialmente eu estava de passagem, e fiz o que fiz motivado pela fuga da vidinha monótona da pequena cidade. Por acaso fui me meter onde não fui chamado. Porém, ao trazer para a minha vida aquelas capelas que nunca fizeram parte de minha história, e menos ainda de meu cotidiano, nelas encontrei a representação mesma da história daquele lugar e daquela gente. Foi-se o café, foi-se a batata, foi-se o porco, como irá o eucalipto, como se foram e ainda irão os antigos. As capelas, todavia, resistem. Por enquanto ainda resistem. Nelas está contida a história da cidade, um museu a céu aberto, testemunho mudo que ninguém por lá ainda se dispôs a dar voz e a registrar. Os antigos podem ser analfabetos. Eles não sabem escrever, é verdade, mas possuem um conteúdo memorial de valor inestimável. Resta-nos apenas esperar que alguém se disponha a explorar esse tesouro, verdadeira herança do passado, para que se seja conservada no presente e preservada no futuro. Afinal, capelas continuam a serviço de suas finalidades sociais, culturais e religiosas.
Sem o devido cuidado, e será feito das capelas o que políticos fizeram com os trens que circularam pelo que um dia foi a poderosa malha ferroviária paulista. Recolheram o material rolante, interromperam a circulação, desativaram estações, pátios, oficinas, e largaram tudo o mais ao sabor das intempéries e dos piratas. Hoje querem apagar as provas remanescentes do que foi um crime, isto é, querem desaparecer com o que restou do abandonado patrimônio ferroviário dos paulistas. Estão chamando de “memória” a preservação em pátio, ou em curta circulação, algum trenzinho a vapor exposto para a curiosidade pública. Por enquanto as capelas “têm” passado. Para políticos os trens da malha ferroviária paulista “são” passado.
Pois é! E ainda dizem que somos um povo sem memória...

Rogério Centofanti
São Paulo, agosto de 2016

NA: todas as imagens fazem parte do acervo do autor, e foram por ele capturadas nas incursões de que fala neste texto.