quarta-feira, 18 de maio de 2016

O estigma

Quando soube que meu olho direito seria literalmente extraído por conta de um câncer - e depois de muito embate interior para me conformar com isso –, ocorreu-me como solução estética posterior aos procedimentos cirúrgicos o uso de um tapa-olho. Compartilhei esse desejo com uma amiga, antes da cirurgia, e dela recebi severas críticas. “Você vai explorar o aleijão?”, perguntou-me Ana Maria, enquanto sugeria a adoção de uma prótese, de um olho de vidro para simplificar a explicação. Eu vou, Ana, eu vou explorar o aleijão.

Como pondero o que dizem as pessoas que me são queridas cheguei a me informar sobre a tal prótese. Interessante, mas custosa sob todos os aspectos. Sendo assim optei por ficar mesmo com o tapa-olho. Pesquisei para saber onde comprar e para minha surpresa em loja de fantasias. Compra-se o tapa-olho de plástico e depois se reveste com couro macio. Fica bonito, e me parece charmoso. Incrível, mas não custa mais do que quatro reais, pois apenas parte de fantasia de pirata. Bom, bonito e barato. Convenhamos: a figura do corsário povoa o imaginário das pessoas.

Isso ainda não foi realizado, pois continuo com um enxerto horroroso no lado direito da face, e que mais se parece com um sapo gordo grudado na cara. Puxa! Perto disto o
tapa-olho será um rico e sofisticadíssimo adorno. Quem sabe eu esteja próximo de lançar um new look no universo da onco fashion masculina - ao menos para as cirurgias deformantes na face -, de modo a fazer frente à onco fashion feminina, marcada pelos maravilhosos lenços de seda para cobrir a calva deixada pela quimioterapia. Ah, onde se agrupam algumas delas e fica a aparência de um desfile de moda de mulher árabe sob o pudor de seu hijab. Pensando melhor nada impede que o tapa-olho se faça acompanhar de um turbante, de um keffiyeh, agregando ao visual um apelo fundamentalista. Quem sabe de uma boina, como a de Alain Delon na figura acima. Gostei. Confesso que antes da perda do olho e da instalação desse sapo gordo eu não havia pensado muito sobre estigmas. Bem, antes da perda do olho tampouco encararia esse cenário com humor. Cirurgia de câncer na cabeça e pescoço costuma fazer-se acompanhar dessa terrível consequência: a deformidade. Por que, então, o humor? Porque perto de outros horrores que vi em hospital o meu é sutil. São indescritíveis, e me esforço para esquecer alguns deles. Gente sem maxilar, por exemplo. Pessoas escondidas de si mesmas no fundo de uma sala de espera. Triste, muito triste, mas ao mesmo tempo assustador, pois nada impede que meu câncer renasça e avance para essa condição.

O sapo gordo, diga-se de passagem, incomodou e ainda incomoda mais do que o olho perdido. É feio e chama a atenção de toda a gente. O problema é que ele não parece um enxerto, mas uma ferida, e já houve quem manifestasse essa impressão: “quando vão remover esse tumor?”

Assim que despertei da longa e terrível cirurgia, a primeira coisa que fiz foi abrir o olho, isto é, o restante, e sentir o alívio de constatar que havia restado ao menos um. Com ele procurei enxergar a parede externa do nariz, pois havia a possibilidade de também ele ter-se ido junto ao olho. Não foi, e estava lá. Como não saísse da cama daquela unidade de terapia intensiva fiquei dias sem acesso a algum espelho. Qual não foi o susto, porém, quando da primeira vez diante da própria imagem, encontrar esse imenso sapo gordo pendurado no lado direito da face? Perguntei aos médicos o que seria feito dele e todos disseram que no tempo certo ele será “emagrecido” até tornar-se uma superfície plana, como vejo em alguns pacientes pelos corredores do hospital. A superfície plana passou a ser meu desejo, pois sobre ela será apoiado o tapa-olho. Está claro que os médicos estão empurrando a decisão de alisar o sapo gordo. Disseram-me que é oportuno esperar um pouco para saber se o tumor não irá surgir novamente, e para que o tecido da região se acomode depois da longa e agressiva exposição de radiação ionizante. Que seja, embora isso não me agrade.

Sapo gordo, sapo magro e superfície lisa. Mas, afinal, do que estou falando?


A cirurgia fez um bom estrago no corpo e na alma. Os médicos ficam incomodados quando falo em estrago, mas foi mesmo um estrago, e dos grandes. Perdi o olho direito, parte do nariz direito, parte do lado direito da face, e isso sem contar as demais miudezas. Para cobrir esse grande buraco os médicos retiraram tecido de minha coxa esquerda e com ela fizeram um enxerto. É a esse enxerto que estou chamando de sapo. Bem, esse foi o primeiro sapo, pois dois ou três dias depois da grande cirurgia e eu voltava para a mesa, O enxerto não havia dado certo. Na segunda tentativa retiraram tecido da coxa direita para outro, e que aqui ainda está com aparência de um sapo gordo. Bem, eu acho que parece um sapo gordo. Já ouvi sobre ele referências piores, embora em tom de humor, e a partir de conhecidos. Um disse que fiquei literalmente com cara de bunda. De conhecido ou não, brincadeira ou não, e eis uma mostra das inúmeras formas pelas quais passo a ser visto e identificado pelos outros. Aborrecido com isso? Hoje não, mas com plena consciência do que isso pode significar na vida social e principalmente na vida profissional. Tem consequência, portanto. Quanto à vida social quero que se dane, mas na profissional preocupa.

Deve ser o mesmo com gago, coxo, manco, surdo, mudo, perneta, cego, maneta, ou portador de qualquer outro tipo de limitação, de deficiência. Na onda do politicamente correto ninguém fala, é claro, exceto pelas costas. Talvez ninguém discrimine, mas certamente não deixará de sentir algum tipo de preconceito, e nada se pode fazer em relação a isso. Aliás, se existe grande imbecilidade em moda – dentre infinidade delas – está a de pretender o controle dos preconceitos. Isso não existe e nem mesmo é possível. O que se pode controlar é a discriminação, e ainda assim dentro de certas circunstâncias. O preconceito é uma reação afetiva, involuntária, e não se resolve pela racionalidade. A saber, inclusive, se alguma coisa que diga respeito à existência se resolva pela racionalidade.

Bem, quando ainda no hospital disse às pessoas mais próximas que não queria a presença de visitas, e pedi para não fazerem alarde sobre o ocorrido. Os motivos eram claros: para muita gente chance para demonstrar compaixão, isto é, para satisfazer a curiosidade mórbida e com direito inclusive a perguntas invasivas. Posso ver a cara de algumas com os olhos praticamente saltando para fora das órbitas diante do grande espetáculo. Posso vê-las em revezamento indagando pelas causas e sensações. Posso ouvir o de sempre: “para Deus tudo é possível”, “faça uma oração com fé”, e outras expressões de “consolo”, mesmo sabendo que não acredito em nada disso. Ah, que prazer elas teriam em testemunhar minha conversão por força do medo diante da morte. Para elas seria o máximo, pois a prova inconteste do arrependimento no momento final. A partir dessas pessoas abnegadas e solidárias na dor e minha vida estaria exposta até mesmo nas redes sociais, talvez com direito a selfies. Se perspectiva desagradável até mesmo quando por inteiro, o que dizer em situação de constrangimento e fraqueza? Lamentavelmente não consigo mostrar a essas pessoas, e menos ainda convencê-las, de que estão estigmatizadas pela burrice, pela idiotice, pela estupidez, pela ignorância e pela miséria existencial. “Ai, ai, lá vem aquela coisa”. “O encosto chegou”. “Como pode ser tão imbecil?”

Diferente do meu sapo gordo a chaga do espírito dessas pessoas só se faz ver por olhos mais sensíveis, e que vão além das crendices da maioria. É uma chaga vulgar, muito comum, mas convertida pelo populacho em virtude. Até hoje tenho conseguido fazer com que boa parte dessas pessoas fique longe de minha vida e eu da vida delas. Não pude, infelizmente, esconder-me de todas, e não tenho como escapar nem mesmo da indiscrição de algumas.

Interessante que quanto mais grosseira a pessoa, mais ela invade em nome “do bem”. Não tem jeito: algumas deformações por falta de berço ou geradas em berço deformado nunca mais se resolvem. Incrível, mas houve quem se imaginou merecedor de minhas lágrimas e de minhas confissões de medo e de arrependimento. Quando se convencem de que isso não irá acontecer correm para transformar-me em exemplo de força e de superação.

O homem vulgar não consegue nem mesmo imaginar existências diferentes da vulgaridade na qual ele teve origem e da qual se alimenta. Pessoas ficam ofendidas com o que devem entender como minha soberba. Como posso não cair em prantos e nem entrar em desespero diante de situação na qual pessoas “normais” estariam simplesmente travadas pelo pânico? Não é, portanto, minha “superioridade” que as ofende, mas a tomada de consciência da própria fraqueza. Esse é o estigma de boa parte dessas pessoas, e que se revela nesses momentos em que a hipocrisia, a superficialidade e a incongruência não se sustentam. Gozado, mas não me recordo de comportar-me de forma assim mesquinha diante dos estigmas físicos de outras pessoas. Por outro lado, os estigmas existenciais dos normais nunca me pareceram tão expostos como agora, e pelos quais, bem mais do que antes, passei a nutrir extremo desprezo. Como se acham superiores com o moralismo e o sentimentalismo chão que tão bem os caracteriza, se sentem ameaçados e injustiçados quando os “fracos” não se comportam com a submissão e “humildade” que eles esperam. Confesso que chega a ser divertido ver a cara de indignação dessas pessoas quando diante da frustração, da quebra de expectativa. O pior é que não percebem a própria imbecilidade, e pelo fato mesmo de serem imbecis continuam mundo a fora repetindo a mesma nota e reprisando a mesma tecla.

Exemplo disso eu tive com criatura que bem representa esse modelo de pobreza de sentimento e de espírito, e que resolveu visitar-me sem ser convidada, é claro, e sem ao menos perguntar, antes, de meu interesse ou disponibilidade para recebê-la. De onde surgiu tamanha grosseria uma vez que não tem amizade e nem intimidade para tal? Da sociabilidade acrítica da pobreza de berço, onde em algum horroroso manual de etiqueta extraído das páginas amareladas de almanaque de farmácia diz que é de “bom tom” visitar os enfermos, os aflitos, para a eles levar uma “mensagem de consolo” e lhes “oferecer um ombro amigo”. Assombração, zumbi, e que ainda espera ser recebido e tratado com a deferência de visita, como se fosse visita, e não apenas um intruso inoportuno.

Tardei um pouco para me expor em locais públicos. A razão disso foi a necessidade de trabalhar o corpo para que pudesse novamente movimentar-me. Afinal, como dito, e apesar da discordância dos médicos com o termo, o estrago nas pernas para remoção dos enxertos também não foi pequeno. Quando em condições aceitáveis, porém, e fiz questão de caminhar pela primeira vez pelos corredores de um supermercado.

Notei de imediato que as pessoas olham. Algumas discretamente, outras nem tanto, mas olham. Crianças, então, chegam a parar, e só retomam a marcha quando puxadas por pai ou mãe. Nunca, porém, alguma criança fez pergunta ou comentário. A impressão é que ficam apenas curiosas com minha figura diferente. Pois não é que nesse dia e nesse supermercado uma senhora nordestina para na minha frente e dispara: “Foi catarata, foi?” Demorei um pouco até reconhecer que a pergunta era a mim dirigida, pois se tratava de uma ilustre desconhecida. Respondi negativamente. Ela disse pensar que se tratava de catarata por conta do “curativo”, apontando com o dedo para o sapo. Mais uma vez respondi, dizendo que não se tratava de um curativo, mas maldosamente imaginando a próxima pergunta e a reação à resposta: “mas, então, o que o senhor tem?”. “Câncer, minha senhora, câncer.” A mulher deu um pulo para traz e saiu às pressas, como se diante de uma doença contagiosa. Como isso aconteceu na primeira aparição em público imaginei que poderia ocorrer outras vezes, e resolvi adotar uma solução que no tempo mostrou-se acertada. Eu que sempre tive uma postura que não facilita aproximações, ergui ainda mais a cabeça e passei a olhar apenas para o horizonte. Funcionou. Nunca mais fui abordado por curiosos invasivos nas lojas e supermercados, embora perceba que nesses locais estou sob o olhar de um bom número de pessoas. Descobri que isso não faz mal, não incomoda, e que essas pessoas são inofensivas. Apenas curiosas diante do que veem podem olhar a vontade, contanto que não especulem diretamente.

Outras investidas ocorreram dentro do próprio hospital, e que é especializado no tratamento de câncer. Uma delas em sala de espera, na qual eu aguardava pela minha vez para consulta. Incrível como tem coisas previsíveis. Pelo corredor foi se aproximando um sujeito que falava alto, enquanto acompanhava a velha mãe, ela paciente. Um sujeito impróprio e inadequado no tamanho, cor e cheiro. Algo me disse que aquilo não teria um bom final.

Pois bem: com tanto lugar desocupado e a figura resolveu acomodar-se do meu lado. Mal sentou e perguntou-me o que eu tinha. Dentro de um hospital que cuida apenas de casos de câncer, e com este sapo na cara, o que mais eu poderia ter? Resolvi enquadrar a criatura na fase inicial, na esperança que a história não evoluísse. “Gastrite, respondi. Afinal, o que mais poderia ter em hospital que trata apenas de casos de câncer". Retrucou dizendo que eu só poderia ter câncer. “Se sabe, então por que pergunta?” Pois bem: a mãe da figura, idosa, mandou que ela calasse a boca. Não funcionou, pois insistiu nas investidas. Sem que eu tivesse dito ou perguntado qualquer coisa ele apontou o dedo para cima dizendo que de lá viria a cura. Eu apontei para a porta do médico, e disse que se imaginasse que a cura viria do céu eu iria para a igreja, e não para o hospital. A criatura perdeu o controle e no alto volume de costume perguntou-me se eu era pastor. Respondi que não. “Nem pastor e nem ovelha”. Pois não é que a figura tirou de pequena bolsa uma bíblia, colocou sobre minha cabeça e começou a entoar um hino? Não demorou muito na cantoria e nem na ousadia, pois sentiu a ação providencial de minha bengala no meio da testa. Saiu reclamando, e ouvindo a mãe dizer que isso era bom para aprender a cuidar da própria vida. Pobre senhora. O câncer já era peso considerável para além dele sentir-se constrangida pelo rebento, e que devia matar a velha senhora de vergonha.

No mesmo hospital outra experiência interessante, embora sem violência. Desta vez na sala de espera de mais uma sessão de radioterapia. Uma senhora acompanhava outra mais idosa, oriental, sentada em cadeira de rodas. Quando a enfermeira levou para tratamento a senhora na cadeira de rodas, a acompanhante, e que estava sentada ao meu lado, de repente levantou-se, abraçou-me a cabeça e começou a chorar. “Não desespere, disse-me em tom dramático. Tenha fé que Jesus vai lhe salvar”. Tomado de surpresa eu não disse nada. Fiquei completamente sem reação. Aliás, ninguém entendeu nada: nem pacientes e nem funcionários. Já tive que ouvir que não deveria me sentir culpado pelo câncer, e de desafeto a famosa frase “aqui se faz, aqui se paga”. Eis o câncer como um castigo divino, ou como vingança.

Bem, câncer é doença estigmatizante até entre cancerosos. Tem algo de sentença de morte. Na cabeça e pescoço, então, com o agravante das deformidades e normalmente não muito sutis, não há como fugir dos estigmas. No caso de meu câncer sei que não me condena a morte, mas pode condenar-me à deformidades ainda maiores, bem maiores, e para o meu gosto isso é pior do que a morte. Como tem algo de roleta russa fica a constante torcida para que o tumor extraído tenha sido o último e para que não retorne. Com essa esperança o que interessa é a recuperação do que é possível recuperar, até mesmo para que a vida profissional seja igualmente recuperada, e sei que o estigma deixado pelo sapo gordo não colabora em nada com esse desejo e necessidade.

Enquanto muitos reclamam que os estigmas afastam pessoas, eu lamento que atraem certo tipo de outras, e não aquelas que eu gostaria, isto é, as que alegram pela presença e fazem bem à emoção, imaginação e pensamento. No meu caso, e afora velhos e bons amigos, tem atraído o que há de mais rasteiro e sórdido para a emoção, a imaginação e pensamento. Que pena! Creio que também na vida de outros, mas talvez não percebam.

O sapo gordo, meu estigma mais evidente, atrai vampiros, gente que morreu ou talvez natimorta, mas que vaga pelas sombras e se perpetua sugando a vida de suas vitimas, normalmente em virtude da fragilidade física e emocional em que se encontram.
Vampiros do sofrimento é como resolvi chama-los. Esses vampiros não são afastados com résteas de alho e crucifixos, mas pelo distanciamento prudente, ainda que com emprego de energia e força, se necessário. Como no caso do vampiro de Bram Stoker - o Conde Drácula imortalizado no cinema por  Christopher  Lee,  na  imagem  ao  lado  -,  o vampiro do sofrimento toma a vida das pessoas de duas maneiras: a vítima entra de vontade própria em seu castelo, ou convida o vampiro para que entre em sua casa. Esse é o motivo pelo qual não entro no campo desses vampiros, e tampouco os convido  para  minha  casa.  Com  essa  cautela o vampiro pode entrar em meu espaço, mas jamais a convite, o que me permite jogá-lo porta a fora tão logo queira, e normalmente quero. Apenas espero por um deslize maior do morto-vivo, não raro manifesto por algum abuso – pois são abusados -, por algum descuido na aparência do desinteresse abnegado com o qual se disfarçam, e na menor ousadia de investir contra a minha vontade, tentando dizer o que devo ou não dizer, pensar ou não pensar, crer ou não crer, sentir ou não sentir. Para se ter ideia de até onde isso pode chegar, tive que ouvir de conhecido que minha cirurgia está sendo um sucesso por obra e graça de “pedidos” que ele encaminhou junto a “entidades do outro lado”. Recebi cobrança de gratidão e reconhecimento de pessoas que rezaram, oraram, ofertaram e pediram em meu nome. Para essas pessoas médicos são meras marionetes de divindades. O que dizer para quem aparece com essa arrogância narcisista, e que ousa imaginar-se próxima de divindades? Como deixar de dizer a essas pessoas que não conseguem resolver nem as próprias vidas?

Como reconhecer tais vampiros? Gente que não convidaríamos sequer para mesa de café ou caminhada por rua ou jardim, pois nada teríamos para a elas dizer, e menos ainda delas ouvir. Gente que nos dá a mais completa certeza de que estaríamos melhor sós do que em sua companhia.

Distância desses vampiros é o que podemos fazer de melhor.


Tardou ocorrer-me que mesmo velho carrego também este novo estigma – o sapo -, mas em novos tempos. Estigmatizar-se está na moda, e pessoas laceram o próprio corpo por vontade própria e ainda pagam para isso. Afinal são piercings, tatuagens, cortes na língua, etc. Perto de alguns desses adornos meu sapo gordo parece comportado, muito conservador. Talvez não fosse sequer notado na Galeria do Rock. Possivelmente eu fosse recusado como membro de alguma tribo dark ou gótica no cemitério da Consolação. De qualquer forma, a convicção de que me sentiria mal se rejeitado, segregado, discriminado por qualquer dessas figuras exóticas, e a igual convicção de que não quero ser aceito e incluído pelas figuras “do bem”, pelos samaritanos, e por qualquer outra forma que vampiros do sofrimento adotam como disfarce.

Como se pode observar em boa parte das vezes o problema não está no estigma, nem no que se repele com ele, mas no que se pode com ele atrair, e nisso reside um perigo.

Rogério Centofanti

Abril de 2016